A História de May — A Andarilha de Aurorion

May era uma jovem filha de Miguel e Lorna, um casal de revolucionários que integrava uma resistência criada para lutar contra os apóstolos de Chronos em seu mundo.
May cresceu em meio a uma zona de conflito, vendo seus pais batalharem diariamente contra os apóstolos da Ampulheta. Por conta disso, acabou presenciando a morte de ambos durante um incidente em uma das bases de refúgio da resistência. Aos dezoito anos, decidiu que tentaria fazer as coisas serem diferentes dali em diante. Assim, tornou-se uma andarilha, vagando pelo mundo em busca de conhecimento sobre criaturas mágicas e seres místicos, a fim de desvendar os segredos por trás do arcano e encontrar uma maneira de pôr fim às atividades genocidas e caóticas do arauto de Chronos em seu mundo.
Foi enquanto se preparava para iniciar sua jornada que May teve seu primeiro contato com Liora e Giuseppe, dois cientistas e estudiosos renomados que auxiliavam seus pais nas atividades da resistência dos revolucionários e dos antigos guardiões. Pelo menos, era nisso que ela acreditava, até que Liora lhe revelou que ambos possuíam conhecimentos muito além do que aparentavam.
Ela explicou à jovem a existência de pedras capazes de conduzir grandes quantidades de energia, permitindo moldar a própria intenção do cerne: as famigeradas Aionitas.
Esse foi o primeiro contato de May com os estudos relacionados a essas pedras. Com seu conhecimento prévio e a orientação recebida, ficou encarregada de vagar pelo mundo como uma andarilha e Caçadora de Feras, com o intuito de catalogar criaturas e estudar biologicamente o funcionamento de suas energias mágicas. Seu objetivo era decifrar a correlação entre a energia mágica presente nos seres vivos e a energia aiónica conduzida pelas Aionitas.
Os anos se passaram até que, finalmente, May retornou de suas viagens aos vinte e seis anos, agora uma adulta mais experiente e detentora de conhecimentos que jamais imaginara adquirir.
Durante suas andanças, May descobriu a existência de uma energia que decidiu chamar de Intenção. Tratava-se de uma energia neutra, manifestada em tudo o que existe. Essa descoberta surgiu de suas observações sobre Aurorion, um gigantesco maquinário movido pelo fluxo constante de energia das Aionitas e pela vontade de Chronos.
Com isso, May passou a acreditar que talvez existisse uma maneira de pôr fim àquele ciclo de ódio desde sua origem.
Determinada a encontrar uma solução, aprofundou seus estudos, fez amizades e conheceu pessoas que a ajudaram a desenvolver suas primeiras capacidades arcanomágicas. Com o tempo, esse aprendizado a levou a descobrir como desenvolver suas primeiras habilidades da alma.
Entretanto, nem tudo eram flores. May precisou dedicar mais três anos a treinamentos físicos intensos e meditações constantes para fortalecer o próprio corpo e condicioná-lo ao desenvolvimento máximo de suas capacidades. Mesmo quando sentia que seus limites estavam prestes a ser ultrapassados e que seu corpo poderia ruir, continuava treinando e se esforçando ao máximo.
Foi durante esse período que descobriu ser portadora de uma neuropatia óptica, uma doença degenerativa que afeta a região ocular e provoca a perda gradual da visão, especialmente quando força excessivamente os olhos. Após realizar alguns testes, descobriu que havia herdado a condição de seu pai, tratando-se de uma doença que também poderia ser transmitida hereditariamente.
Até os dias atuais, May continua escondendo essa condição, determinada a fazer tudo o que estiver ao seu alcance para libertar seu mundo do domínio de Chronos.
Foi também nessa época que conquistou uma posição de liderança entre os revolucionários, tornando-se, pouco depois, capitã da divisão de Liora. Enquanto isso, Giuseppe continuava realizando viagens constantes, atravessando regiões onde o tempo parecia não alcançar, em busca de uma solução mais imediata para a situação daquele mundo.
Contudo, as guerras não cessavam, e os confrontos tampouco davam trégua.
Ainda assim, nada disso impediu May de se apaixonar.
Seu nome era Maria, uma mulher implacável e dedicada que havia sido resgatada de uma das prisões de anomalias criadas por Chronos. Naqueles locais, corpos eram mantidos como possíveis fontes de energia, destinados a serem utilizados como baterias no futuro.
Maria era o tipo de mulher que cativava May. Falava pouco, agia com precisão e demonstrava uma determinação inabalável. Assim como May, também havia perdido muito ao longo de sua existência.
Em sua própria realidade, Maria havia sido madre em um orfanato e buscava recuperar as lembranças de seu passado, tentando reencontrar aquilo que havia perdido. Recordava-se de duas crianças: um garoto e uma garota de cabelos esbranquiçados e olhos de cores distintas. Segundo suas lembranças, a menina possuía olhos da cor ametista, enquanto o garoto tinha olhos dourados.
Apesar da angústia que carregava e das incertezas que a atormentavam, Maria decidiu entregar-se aos próprios sentimentos e permitir-se apaixonar por May.
Foram exatamente três meses de caos e sofrimento. Entretanto, enquanto estavam juntas, May e Maria encontravam uma na outra um pouco de leveza em meio àquela realidade cruel. Ao lado de Maria, May sentia que os fardos que carregava se tornavam menos pesados, e ambas encontravam forças para enfrentar tudo aquilo que surgisse em seus caminhos.
Foi então que May elaborou um plano para atacar diretamente uma das bases do arauto de Chronos e, finalmente, dar um xeque-mate naquele conflito.
Inicialmente, Liora se opôs à estratégia. Embora o plano fosse eficiente, a ausência de Giuseppe representava um risco considerável e poderia se tornar o fator determinante para o desfecho de toda a batalha. Ainda assim, ao perceber o quanto May estava decidida a colocar um ponto final naquele ciclo de ódio, Liora resolveu apoiar a jovem, pois acreditava em sua força, em sua determinação e na possibilidade de que, dessa vez, as coisas fossem diferentes.
E assim o ataque foi iniciado.
O plano consistia em criar uma isca capaz de atrair a maior parte das tropas de Chronos para uma única região, chamando sua atenção por meio da maior demonstração de poder mágico que os revolucionários conseguissem reunir.
Por sorte, a maior especialista arcana daquela geração estava ao lado deles.
Enquanto Liora comandava os revolucionários em uma ofensiva contra uma das prisões de Chronos, conduzindo a maior parte das tropas inimigas para longe, May avançava com Maria e sua equipe de vanguarda em direção à torre principal. Seu objetivo era confrontar pessoalmente o portador do relógio e encerrar aquela guerra de uma vez por todas.
Como um estalo repentino, enquanto tudo parecia caminhar para uma resolução definitiva, a batalha prosseguia. May e os revolucionários avançavam rumo à conclusão daquele ciclo de ódio, com a jovem demonstrando domínio absoluto sobre suas capacidades. Sua energia fluía em perfeita harmonia com seu corpo, como se ambos fossem uma única coisa. May havia se tornado uma verdadeira arauta de sua própria energia.
Entretanto, uma explosão destruiu a primeira esperança de vitória.
Liora estava morta.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
Havia um traidor entre eles? O plano havia sido elaborado com cautela, e todas as precauções necessárias tinham sido tomadas. Não havia como o inimigo antecipar seus movimentos sem que informações importantes tivessem sido vazadas.
Mas não havia tempo para encontrar respostas. A batalha precisava continuar.
Em meio ao confronto, um erro de cálculo, somado ao cansaço extremo e ao agravamento de sua condição ocular, acabou comprometendo May. Sua visão se tornou cada vez mais turva, reduzindo tudo ao seu redor a borrões indistintos. Mesmo assim, ela continuou lutando, forçando o próprio corpo além do que ele era capaz de suportar.
Mas não foi o suficiente.
Quando o golpe derradeiro do tirano relógio estava prestes a atingi-la, Maria se lançou à frente de May, recebendo o ataque em seu lugar.
E ela se foi...
O silêncio tomou conta de tudo.
Em choque, May abraçou o cadáver de Maria, repetindo inúmeras vezes que sentia muito. Sua força havia desaparecido, sua vontade estava quebrada e sua esperança fora esmagada pelo peso de um presente que parecia condenado a se repetir eternamente.
Foi naquele instante que May recebeu sua maldição.
Sua alma e seu corpo foram separados, condenando-a a vagar por um paradoxo infinito, no qual reviveria os acontecimentos de sua vida sob diferentes circunstâncias, apenas para retornar sempre ao mesmo ponto: sua queda inevitável.
Sua condenação seria eterna.
E assim começou o ciclo.
Durante 14.592 repetições, May viveu e morreu incontáveis vezes. Em cada uma delas, o destino parecia encontrar uma nova maneira de conduzi-la ao mesmo desfecho. Sempre que recuperava as lembranças, acabava morrendo e esquecendo tudo novamente.
Em algumas repetições, conseguia recuperar seu corpo. Em outras, fortalecia sua alma o suficiente para assumir a forma de uma raposa negra, cuja pelagem apresentava algumas manchas alaranjadas.
Ainda assim, nada parecia suficiente para romper aquela prisão temporal.
Até que, durante seu último ciclo, May encontrou um homem vestido com roupas sociais escuras, adornadas com detalhes roxos.
Ele se apresentou como Bugarios.
Sem oferecer grandes explicações, pediu apenas que ela confiasse nele e estendeu a mão em sua direção.
Naquele momento, May já não possuía motivos para acreditar em coisa alguma. Não havia razões para continuar tentando, tampouco esperanças às quais pudesse se agarrar. Depois de tantas mortes, perdas e repetições, até mesmo a vontade de resistir parecia ter sido consumida.
Ainda assim, algo dentro dela a impulsionou a estender a mão em direção àquele desconhecido.
Por um breve instante, May conseguiu enxergar as figuras de seus pais. Miguel e Lorna estavam diante dela, sorrindo como se demonstrassem todo o orgulho que sentiam por sua filha.
E, pela primeira vez em incontáveis ciclos, aquele instante não parecia conduzi-la à morte.
Assim chegamos ao tempo presente.
May finalmente rompeu o ciclo que a aprisionava, sustentando-se em sua determinação implacável e em sua vontade de continuar vivendo. Agora, aos trinta e dois anos, ela ocupa o cargo de líder da Escola de Ethearal.
Ao longo dessa nova etapa de sua vida, conheceu pessoas que jamais esquecerá e construiu amizades que passaram a ocupar um lugar especial em seu coração. Ainda assim, continua escondendo a verdade sobre sua doença, pois acredita fielmente que alguns fardos nos são entregues porque somente nós mesmos podemos carregá-los da maneira adequada.
Apesar de tudo o que enfrentou, May jamais abandonou seu sonho.
Ela ainda deseja libertar as anomalias da tortura constante à qual são submetidas e livrar seu mundo dessa gigantesca máquina de sofrimento que Aurorion foi programada para ser.
Entretanto, existe também um desejo pessoal que permanece vivo dentro dela: concluir seu livro, um manual dedicado às criaturas e aos seres mágicos existentes em cada universo.
Uma obra que reunirá tudo aquilo que aprendeu ao longo de suas viagens, de suas batalhas e de sua busca incessante por conhecimento.
O legado de uma vida inteira dedicada a compreender os mistérios do arcano.
Seu nome?
O Bestiário Definitivo de Sparda.
