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Caderno sem título...

Escritas e pensamentos de um homem quebrado

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Última revisão10 de abril de 2026
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Caderno sem título...

caderno sem título

propriedade de Giuseppe ~~Barone~~ ~~Camolli~~ ~~Barone~~

Apenas Giuseppe.

eu acho.


se eu tivesse voltado antes.

não sei que dia é. não importa.

ela caiu.

Eu estava lá.

eu vi.

eu vi ela se colocar na frente.

eu não pedi pra ela fazer aquilo. eu não pedi. EU NÃO PEDI.

ela segurou minha mão e empurrou o fragmento e disse "pra quando ela crescer... ela é tua também"

eu não sabia da rask. eu não sabia que ela existia. liora escondeu. ou escolheu não contar. ou não teve tempo. não sei qual é pior.

e ela caiu.

e eu não fiz nada.

EU NÃO FIZ NADA.

eu que vejo todos os tempos. eu que tenho o olho dourado. eu que enxergo cada linha, cada futuro, cada possibilidade. e na única vez que importava eu não vi. não previ. não impedi.

pra que servem esses olhos se não conseguiram salvar ela?

pra que serve ver tudo se eu não pude fazer NADA?

rask tá dormindo agora. tão pequena. o fragmento pulsa toda vez que ela chora. vibra. como se a liora ainda tivesse aqui dentro desse pedaço de cristal manchado de sangue. o sangue dela. ainda tá ali. eu não limpei. não consigo.

de noite o olho me mostra versões. linhas douradas no escuro. tempos onde eu cheguei a tempo. onde ela tá viva. onde rask tem mãe. onde eu seguro a liora e não o fragmento.

existem em algum lugar. mas não no meu tempo.

tentei escrever o que aconteceu. não saíu nada. só uma frase:

se eu tivesse voltado antes.

não dormi. os olhos não fecham. continuam mostrando. mostrando. mostrando.

eu quero arrancar eles da minha cara.


anos depois. muitos. não contei.

retomei o caderno preto. o multiciclo é real. a entropia emocional liga aeonita, escolha e arrependimento. se eu sintonizar o fragmento na frequência certa

eu posso trazer ela de volta.

eu vou trazer ela de volta.

eu preciso trazer ela de volta.

essa é a única coisa que me mantém de pé. a ideia de que um dia eu vou abrir uma fissura e ela vai estar do outro lado. e dessa vez eu não vou chegar atrasado. dessa vez eu não vou falhar

rask cresceu. forte. mais que eu. sorri fácil.

perguntou da mãe uma vez.

eu mudei de assunto.

ela nunca mais perguntou.

às vezes ela sorri de um jeito que

que parece

eu não consigo olhar quando ela sorri assim. porque é o sorriso da liora. exatamente o mesmo. e toda vez eu quebro por dentro e ela não entende porque o pai chora do nada.

os ~~Barone~~ Camolli sempre foram fortes. eu preciso ser forte. pela rask.

mas tá cada vez mais difícil fingir.


séculos. não sei quantos. já perdi a conta.

falhou.

falhou.

tentei tudo. cada fissura. cada rota. cada frequência. cada mundo. século por século um por um.

nenhum levava a ela.

não vou descrever como. se alguém ler isso um dia só precisa saber: eu tentei tudo que era possível e tudo que não era. e não foi suficiente.

o fragmento ainda pulsa. mais fraco. ou sou eu. já não sei onde acaba o cansaço do cristal e começa o meu.

as anotações do multiciclo tão rasgadas. manchadas. algumas páginas não abrem mais.

não de água.

milênios liora. milênios buscando você.

e o tempo venceu.

como sempre vence.

a única coisa que me mantinha de pé era a ideia de trazer você de volta. era a obsessão. o plano. o próximo salto. e agora não tem mais próximo salto.

eu acordo e não sei porque.

eu respiro e não sei pra quê.

liora eu prometi que dessa vez não ia falhar o salto.

eu falhei.

eu falhei eu falhei eu falhei eu falhei

eu sou giuseppe ~~Barone~~ ~~Camolli~~ e não sei mais nem meu nome


último mundo possível.

usei a máquina.

não pra mim. acabou pra mim. já tentei tudo.

usei pras anomalias de aurorion 556. últimas edições de si mesmos. arrancados do fluxo. sem lugar sem tempo sem nada. iguais a mim.

eu podia salvar eles. então salvei.

dei cidade. comida. roupa. abrigo. nome. nova itália. minha cidade. minha história. a história dos

a história dos ~~Barone~~ Camolli. dos Camolli.

abri tudo. as portas, os prédios, as fábricas. dei meu nome pra quem não tinha. dei abrigo pra quem não tinha chão.

e esperei.

não gratidão. só… talvez que alguém olhasse ao redor e entendesse o peso. talvez alguém dissesse obrigado. ou só olhasse nos meus olhos sem medo.

só não queria tá tão sozinho.

veio silêncio. e depois do silêncio veio o resto.


semanas atrás? meses? tanto faz.

voltei pra nova itália escondido. me disfarcei. andei pelos locais. bom que ninguém percebeu os dois alastor.

e toda vez que ando pela cidade a mesma coisa na cabeça:

porque eu fiz tudo isso por eles?

invadem minhas fábricas. roubam. incendiaram a fazenda da rask. a fazenda da minha filha. TENTARAM ME MATAR. e riem. riem de tudo que eu construí como se fosse piada de boteco.

mike. o garoto que eu aceitei na família ~~Barone~~ Camolli. que recebeu meu nome. meu sangue. minha confiança.

usa o nome pra matar. pra gritar. preso 2 vezes.

o nome que ele mancha é o meu. o que sobrou dele.

EU SALVEI ELES. EU.

EU TIREI ELES DO NADA. DO VAZIO. DA MORTE.

E O QUE ELES FAZEM?

ME CHAMAM DE PERIGO.

ME TRATAM COMO AMEAÇA.

CRITICAM SEM SABER O MÍNIMO DO QUE CUSTOU CADA TIJOLO DAQUELA CIDADE.

ELES ACHAM QUE EU ESQUECI.

O INCÊNDIO. AS INVASÕES. AS TENTATIVAS. OS ROUBOS. OS INSULTOS.

EU NÃO ESQUEÇO. EU NUNCA ESQUEÇO. O OLHO NÃO DEIXA.

pietro. descontrolado. trata tudo que eu construí como se fosse dele. como se os séculos que eu sangrei não existissem.

e o nome volta. na cabeça. sem parar. camolli camolli camolli camolli camolli

ESSE NÃO É MEU NOME. NUNCA FOI.

eu sou giuseppe BARONE

não. Camolli.

não sei.


de noite. torre. sempre a torre.

deitado aqui de novo. sozinho. como sempre.

o olho não para. nunca para. linhas douradas cruzando tudo. nomes. datas. assinaturas. documentos que passam na minha visão como páginas de um livro que alguém reescreveu sem me avisar.

li os registros da família. os documentos. as assinaturas.

PORQUE TUDO PARECE ESTRANHO???

cada página parece errada. como se alguém tivesse passado borracha na minha existência e reescrito por cima.

os documentos dizem camolli.

a memória diz camolli.

a mente diz camolli.

mas os olhos gritam BARONE

meus olhos tem me enganado? ou o resto do mundo que tá errado?

levei anos buscando pessoas que de forma inexplicavel se tornaram importantes pra mim. qual o sentido? porque minha mente fica turva toda vez que penso nisso?

fui ver o neko. ele me olhou diferente. como quem olha pra alguém que não deveria existir. ou pra alguém que já não existe.

neko… eu fui retirado do fluxo? o que fizeram comigo?

eu sou giuseppe ~~bar cam bar~~

eu sou giuseppe.

só giuseppe.

o resto eu não sei mais.


dante moretti.

meu braço direito.

o homem que segurou tudo quando eu desmoronei.

que tava lá quando ninguém mais tava.

que me olhava nos olhos e dizia que ia ficar tudo bem.

ele matou a liora.

ele.

não chronos. não uma entidade. não o supremo. não uma força cósmica sem rosto.

dante. humano. próximo.

o homem que eu mais confiava.

cada conversa que a gente teve depois daquele dia.

cada plano que a gente traçou junto.

cada vez que ele me olhou nos olhos enquanto eu falava da liora.

enquanto eu chorava por ela.

enquanto eu dedicava séculos tentando trazer ela de volta.

ele sabia.

ele sabia e ficou do meu lado.

ele sabia e me consolou.

ele sabia porque foi ele.

mentira. tudo mentira. séculos de mentira. séculos do lado do homem que tirou ela de mim.

eu deveria sentir raiva.

eu sei que deveria.

deveria querer destruir ele. fazer ele sentir o que eu senti quando vi ela cair. quando segurei o fragmento ensanguentado. quando ouvi a voz dela dizendo que rask era minha também.

mas não sinto nada.

nada.

como se a última estrutura que ainda existia dentro de mim foi arrancada. e agora só tem escuro. um vazio que não tem fundo. que não tem parede. que não tem nada onde encostar.

sabe o que é pior?

eu olho pro passado com o olho dourado e vejo todos os sinais. vejo todas as linhas que apontavam pra ele. e eu ignorei. porque confiava. porque precisava confiar em alguém.

o olho viu tudo. e eu não quis enxergar.

de novo.

liora me perdoa.

por favor.

me perdoa por ter confiado nele.

me perdoa por não ter chegado a tempo.

me perdoa por não ter conseguido te trazer de volta.

me perdoa por tudo.


agora. eu acho.

A guerra tá lá fora. elementos contra cultistas da ampulheta acorrentada. o olho me mostra cada movimento. cada estratégia. cada morte que ainda não aconteceu.

Eu sei o que tá em jogo.

e não consigo me importar.

não é que eu não saiba. eu sei. eu vejo. mas o mecanismo que transforma saber em fazer quebrou. faz tempo que quebrou. eu tô aqui olhando tudo arder e meu corpo não se move. como se eu tivesse virado estátua. ou fantasma.

e veio o pior.

a guerra cortou minha conexão com rask.

dimensão separada. o fragmento de liora tá mudo. pela primeira vez em milênios. silêncio no peito.

eu sempre soube onde ela tava. sempre. o fragmento me dizia. vibrava quando ela sentia dor. pulsava quando ela chorava. era o fio. o último fio que me ligava a alguma coisa.

cortaram.

não sei se ela tá viva.

não sei se tá segura.

não sei se tá sozinha.

não sei se tá com medo.

não sei se tá chamando por mim.

perdi liora. o plano falhou. o nome foi roubado. a cidade me odeia. dante era o assassino.

e agora rask.

a última coisa. a última.


o ar aqui de cima da torre é mais fresco. a cidade tá vazia. nenhum morador. nenhum barulho. só o vento e o olho dourado girando sem parar mostrando coisas que eu não aguento mais ver.

milênios. já perdi a conta.

lutei contra monstros. anomalias. entidades. seres superiores. maldições. experimentos.

matei o que precisava matar. cacei o que precisava caçar. finalizei realidades inteiras. destruí conceitos.

fiz tudo que tava ao meu alcance e tudo que não tava.

e agora tô aqui. escondido. fugindo. confuso. sem entender como meu próprio nome virou piada.

esse não sou eu. nunca foi. nunca vai ser.

liora…

onde eu errei?

porque tudo que eu amo escorre entre os dedos? tudo que eu faço meu melhor pra cuidar some. quebra. morre. trai.

milênios buscando um jeito de te trazer de volta.

milênios tentando fazer a rask sorrir de verdade.

nossa filha. nossa pequena rask.

você tá feliz? tá sorrindo em algum lugar que eu não consigo ver?

será que tudo que eu fiz só me transformou no vilão?

os olhos continuam. linhas. nomes. tempos. versões onde eu sou

BARONE

onde tudo faz sentido. onde alguém me espera.

mas aqui nesse tempo nessa versão eu só tenho:

um caderno sem título.

um fragmento que não pulsa mais.

e um nome que não é meu.

em que momento minha vida virou um jogo de estratégia de um ser maior?

eu tô cansado.

eu tô tão cansado.

G.

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