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Neko
«Não tem mais nada que eu possa fazer...»
Aurorion Studios
Ato I — O Vazio
Eu tentei tudo.
Ele fala sozinho. Não pra ninguém. Só pra preencher o silêncio que pesa.
Neko Eu tentei tudo. Milênios... milênios inteiros tentando segurar o que estava escapando pelos dedos... e o fim chegou mesmo assim. Como sempre soube que ia chegar.
Uma pausa. Ele fecha os olhos por um segundo.
Neko Só não esperava que fosse doer tanto.
O vazio ao redor dele não tem chão, não tem teto, não tem nome. É o espaço nu — estrelas espalhadas como cacos de espelho, realidades dobradas sobre si mesmas ao fundo, o universo inteiro parecendo uma ferida aberta e silenciosa. Neko caminha por ele como quem conhece o caminho, mas não tem mais pressa de chegar.
Eles tinham combinado um ponto. Um lugar vazio onde ninguém olharia, onde ninguém passaria. Um desses cantos esquecidos entre uma realidade e outra. Simples. Discreto. Só deles.
Mas quando o ponto aparece no horizonte — ele sente antes de ver.
A dois, talvez três passos de distância ainda, ele enxerga as silhuetas. Altas. Imóveis. Uma com sobretudo vermelho que parece absorver a luz. Outra com azul que parece emaná-la. Não havia como não reconhecer.
Themis. O Arauto. Vydar. O Executor.
O pelo de Neko arrepia de uma vez só — não de frio, não de medo comum. De algo mais antigo que isso. Eles dois juntos não aparecem pra conversar. Não aparecem pra avisar. Eles aparecem quando algo já foi decidido, quando a lei já foi consultada e a sentença já existe. O peso que eles carregam não é o peso de dois seres — é o peso de tudo que o Supremo jamais permitiu que existisse fora do lugar certo.
Tensão.
Neko para. O instinto grita pra recuar. Ele ignora o instinto e avança devagar — porque ele precisa ver. Porque uma parte dele ainda está se recusando a entender o que a outra parte já sabe.
E então ele vê Hime.
Ajoelhada. Na frente deles. Sem se mover. Prostrada sobre os próprios joelhos como uma vela que apagou mas ainda está de pé por inércia.
Algo dentro de Neko — algo que ele nem sabia que ainda estava inteiro — parte.
— 1 — Neko · Não tem mais nada que eu possa fazer
Ato II — O Grito
O tipo de som que sai quando o corpo entende antes da mente.
Ele grita. Não uma palavra. Não um nome. Um som. O tipo de som que sai quando o corpo entende antes da mente, quando o grito vem do lugar mais fundo e mais antigo de um ser. Ele corre. As pernas levam ele antes que ele decida correr, o corpo já foi, a cabeça ainda está tentando formar um pensamento que não seja o que já sabe — ela não está mais ali, ela não está mais ali, ela não está mais ali —
Neko pula na direção de Vydar. E para no ar. Suspenso. Como se o universo tivesse pausado só ele.
Vydar Não faça isso, garoto.
A voz de Vydar não é cruel. É pior que isso — é justa. É a voz de quem não precisa se defender porque nunca fez nada errado.
Themis Coloque-o no chão, por favor, Vydar. O garoto está do nosso lado.
Neko toca o chão e não espera um segundo sequer. Vai de joelhos até Hime e a segura nos braços — forte, como se segurar forte pudesse fazer alguma diferença, como se o calor dos seus braços pudesse chegar em algum lugar que ela ainda estivesse.
Nada.
Ela não responde. Não recua, não afunda, não aquece. É o corpo de Hime. É o rosto de Hime. São as mãos de Hime. Mas Hime não está lá.
Neko O que aconteceu?
A voz sai pequena. Quebrada.
Neko O que a gente fez de errado? Eu sempre fiz tudo que me mandaram... desde aquele dia, eu nunca... eu nunca saí da linha, nenhuma vez, eu obedeci cada ordem, engoli cada regra, não reclamei de nada... Então porque vocês estão aqui? Porque ela não responde?
Desespero.
Themis se ajoelha. Devagar. Com uma gravidade que não é arrogância — é compaixão.
Themis Ela é uma quebra das regras, pequeno guerreiro.
A voz dele é serena como sempre. E é exatamente isso que dói — que ele não precisa elevar a voz para anunciar o fim de alguém.
Themis A criação dela quebrou a única regra que Ele jamais abriu exceção. Seres Celestiais não podem ser criados. Ela não era um — não ainda. Mas tinha em si tudo que seria preciso para se tornar. E te levaria junto. Se deixássemos a essência dela aqui, o peso disso ia desdobrar, e o equilíbrio que existe desde o princípio ia começar a rachar de dentro pra fora. Outros já tinham os olhos em vocês dois. Estavam esperando só o momento certo de atravessar o portão.

Neko olha para Themis. Depois olha pra Hime. Depois olha pro vazio ao redor — o espaço infinito, as estrelas que não sabem o que acabou de acontecer, as realidades que continuam dobrando sobre si mesmas como se nada tivesse mudado.
E algo dentro dele — o último pedaço que ainda estava de pé — começa a desmoronar.
— 2 — Aurorion · Ato: Oblivion
Ato III — A Súplica
Ela é a única coisa que me sobrou...
Neko ajoelhado segura o corpo de Hime contra o peito, como se apertar mais forte pudesse trazer ela de volta. Seus dedos tremem enquanto enrola os braços ao redor dela. Ele não chora ainda. Ele não consegue. É grande demais. É grande demais pra caber em lágrimas.
Depois de um longo, pesado, interminável silêncio — algo quebra.
Neko Ela é a única coisa que me sobrou...
A voz sai partida, pequena, como se a garganta tivesse esquecido como funciona.
Neko Você não entende... você não pode entender...
Ele afasta levemente o rosto de Hime para olhar para ela. Os olhos passam por cada detalhe do rosto dela, como se estivesse tentando memorizar o que já não pode mais guardar.
Neko Eu perdi minha irmã. Perdi minha mãe. Perdi cada pessoa que um dia me olhou e soube meu nome de verdade... Perdi cada lugar que um dia foi meu... Tudo que eu construí, tudo que eu fui, tudo que eu poderia ter sido...
A voz engasgada. Ele fecha os olhos.
Neko Tudo. Morreu. Comigo.
Uma pausa. Quando ele abre os olhos, não tem mais a frieza de guerreiro. Tem só um menino que não sabe mais onde está.
Neko Eu não pedi nada. Eu nunca pedi nada a ninguém... só pedi isso. Uma coisa. Um canto escuro onde ninguém nos achasse. Um lugar onde a gente pudesse existir sem machucar ninguém... sem ser encontrado... sem ser cobrado pelo que a gente é...
Súplica.
Ele aperta Hime de novo. O corpo dela não responde. Ele sabe disso. Ele sente isso. E isso é o que mais dói.
Neko Por favor...
A palavra sai como um fio de voz. Não é ordem. Não é negociação. É o que sobra quando tudo o mais acabou.
Neko Eu faço o que você mandar. Eu mato quem você pedir. Eu vou pra onde você jogar. Eu sumo, eu desapareço, eu me apago se precisar... mas não... não me tira ela. Não me tira a única coisa que ainda me fazia lembrar que eu existi...
Ele não consegue mais falar. Não porque faltam palavras — mas porque a dor ficou grande demais pra ter nome.
Neko Por favor, Themis... por favor...
Themis Ela já foi assimilada, garoto. Nem nós podemos reverter isso...
— 3 — Neko · Não tem mais nada que eu possa fazer
Ato IV — A Ruptura
«Algo que estava contido há tempo demais.»
Silêncio. O tipo de silêncio que não é ausência de som — é ausência de tudo. O universo inteiro prendendo a respiração.
Neko não chora mais. As lágrimas pararam. Os tremores pararam. Ele está de joelhos com Hime nos braços e de repente... para. Completamente.
Themis e Vydar se olham.
E nesse olhar — dois seres que já viram o começo e o fim de civilizações inteiras, que já estiveram presentes quando Celestiais caíram, quando realidades foram apagadas, quando o próprio Supremo re-escreveu as regras — nesse olhar existe uma coisa que quase nunca aparece entre eles:
Incerteza.
Algo está acontecendo com o garoto. Começa pequeno. Um tremor que não é do corpo — é do espaço ao redor dele. As estrelas no vazio começam a pulsar de forma irregular, como batimentos cardíacos fora de ritmo. As realidades ao fundo, que sempre dobravam devagar e silenciosas, começam a se retorcer.
Neko solta Hime devagar. Não porque quer. Porque os braços não obedecem mais. Ele olha para as próprias mãos. Os dedos tremem — não de medo, não de frio — de algo que não tem nome ainda. Uma energia que está vazando pelas costuras do que ele é, como água esquentando dentro de um recipiente pequeno demais.
Ruptura.
E então vem o primeiro som. Uma risada. Baixa. Seca. Partida no meio.
Neko
Hah... hah... hah...
Ele não está rindo. O som saiu sozinho, como se alguma coisa dentro dele tivesse quebrado de um jeito que produz esse barulho — o barulho de uma mente tentando processar o que não cabe em lugar nenhum.
Os olhos de Neko mudam. Não de cor primeiro. De expressão. O vazio que estava lá — aquele vazio de quem perdeu tudo e sabe disso — começa a rachar. E por baixo do vazio tem algo que não deveria estar lá. Algo que cresceu nos milênios de perda, de obediência, de engolir e continuar, de perder e continuar, de sangrar e continuar—
Os olhos ficam vermelhos.
Não o vermelho de raiva. O vermelho de uma estrela que chegou no seu limite. O vermelho de algo que estava contido há tempo demais.

E o espaço ao redor de Neko começa a se distorcer de verdade. As estrelas mais próximas pulsam na frequência do que ele está sentindo — irregular, frenética, como um coração que esqueceu o ritmo. O vazio que antes era tranquilo começa a espiralar ao redor dele lentamente, a escuridão se adensando, a matéria do espaço dobrando como papel molhado, redemoinhos de realidade e vácuo girando com ele no centro.
Neko se levanta. Devagar. Com o peso de alguém que não está levantando o corpo — está levantando tudo que sobrou dele depois de perder o resto.
Neko
Então é isso. É isso. É sempre isso. Você faz tudo certo. Você segue todas as regras. Você engole, você abaixa a cabeça, você obedece, você perde, você continua, você perde de novo, você continua de novo...
Ele olha para Hime. Por um segundo longo demais.
Neko E no final — no final de tudo — a única coisa que sobrou... também vai embora.
Neko Hahahah... e eu fico aqui? Eu fico aqui de pé no meio de nada, cercado de nada, sendo nada, pedindo por favor para dois seres que nem podem me ajudar mesmo se quisessem?
O espaço espirala mais rápido. A escuridão ao redor de Neko toma forma — não de uma criatura, não de uma explosão. De uma extensão. Como se o vazio estivesse se tornando parte dele. Como se ele estivesse se tornando parte do vazio.
Themis recua meio passo. Vydar não recua. Mas os ponteiros do relógio na sua face — que sempre se movem com precisão absoluta — param.
Param.
O garoto não está tendo um colapso. O garoto está... chegando em alguma coisa.
A dor quebrou Neko longe demais — e nas fraturas, alguma coisa estava crescendo há milênios sem que ninguém percebesse. Nem ele mesmo.
— 4 — Aurorion · Ato: Oblivion
Ato V — Chronos
«Por escolha.»
Themis Neko. Olha pra mim.
O nome atravessa o espiral. O espaço distorcido treme com ele. Neko não olha. Os olhos vermelhos estão fixos em algum ponto no vazio que não existe — o ponto onde Hime deveria estar, o ponto onde tudo deveria ser diferente, o ponto que nunca vai existir.
Themis Pequeno guerreiro. Olha pra mim.
Algo na voz — não autoridade, não ordem — algo que soa como: eu sei o que você está carregando e não vou fingir que não sei. Isso atravessa. Neko olha.
Themis Você perdeu tudo. E eu não vou te dizer que não perdeu. Não vou te dizer que vai passar. Não vou te dizer mentiras bonitas porque você merece mais que isso.
Uma pausa.
Themis Mas eu vou te dizer uma coisa verdadeira.
Ele estende a mão — não pra conter, não pra prender. Só estende.
Themis Existem infinitas realidades lá fora, Neko. Infinitas. Cada uma delas ferida. Cada uma delas sendo consumida devagar por algo que você conhece muito bem — pelo ser que criou a MÃE, que criou você, que colocou você nesse caminho desde o começo. Que tirou tudo de você não por lei. Não por equilíbrio.
Verdade.
Themis Por escolha.
Chronos.
O nome cai no vazio como uma pedra em água parada. O espiral ao redor de Neko treme.
Vydar Nós não somos seus inimigos, garoto. Nunca fomos. E a guerra contra o que te destruiu... ainda não terminou.
O espiral desacelera. Só um pouco. Só o suficiente.
Neko está de pé no centro de tudo que se tornou — o espaço distorcido ao redor, os olhos que não são mais só dele, a dor que virou alguma coisa que ele ainda não tem nome pra chamar. Ele olha pra mão estendida de Themis. Olha pra Hime uma última vez.
E algo — não paz, não cura, não resolução — algo parecido com o primeiro fôlego depois de quase se afogar — passa pelo rosto dele.
— 5 — Neko · Não tem mais nada que eu possa fazer
Ato VI — O Fardo
O que eu era... já morreu aqui.
Neko não pega a mão de Themis imediatamente. Fica olhando pra ela. Por tempo demais. Como se aceitar significasse que é real. Como se não aceitar pudesse fazer com que não fosse.
O espiral ao redor dele continua girando — mais devagar agora, mas não parado. Como uma ferida que parou de sangrar mas ainda está aberta.
Ele se levanta completamente. A escuridão ao redor dele não some — ela se acomoda. Se organiza. Como se tivesse encontrado o lugar certo dentro dele e decidido ficar.
Neko Ela vai ficar aqui?
Themis Ela não está mais aqui, Neko. O que ficou não é ela. Você sabe disso.
Neko Eu sei.
Ele sabe. Sabia desde o começo. Só precisava ouvir de alguém que não fosse ele mesmo.
Neko Chronos fez tudo isso.
Não é uma pergunta.
Themis Sim.
Neko A MÃE. O que eu sou. O que Hime era. O caminho inteiro que eu andei. Tudo foi ele.
Themis Sim.
Decisão.

Neko olha pro vazio à frente — pro espaço infinito, pras realidades se dobrando, pras estrelas que continuam existindo como se nada tivesse acabado aqui.
E fala com uma voz que não tem mais nada de criança dentro:
Neko Então eu quero estar no lugar mais perto possível de quem vai chegar até ele.
Themis e Vydar se olham. Não de surpresa dessa vez. De confirmação.
Themis O Supremo vai te assimilar, Neko. Você entende o que isso significa. Você não será mais só você. Você carregará o peso de tudo que Ele carrega. Todas as realidades. Todas as fraturas. Toda a dor de um universo que está sendo consumido. Não é um presente. Não é uma recompensa. É o maior fardo que existe.
Neko nem pisca.
Neko Eu já carrego o maior fardo que existe.
O vazio ao redor pulsa uma vez. Forte. Como um coração.
Neko Pelo menos agora ele vai servir pra alguma coisa.
Vydar Quando você chegar lá... o que você era não vai existir mais da mesma forma. Eu só queria que você soubesse. Antes.
Uma pausa longa. Neko olha pro espaço onde Hime estava. Fixa esse ponto na memória — não como despedida, mas como combustível. Como a coisa que vai queimar dentro dele por todo o tempo que vier depois disso.
Neko O que eu era... já morreu aqui.
Ele vira de costas pro corpo de Hime pela primeira vez. E não olha mais.
— 6 — Aurorion · Ato: Oblivion
Epílogo — O Nome
Os três caminham pelo vazio. Themis à esquerda, Vydar à direita, Neko no meio — menor que os dois, mais jovem que os dois, partido de um jeito que os dois nunca foram.
Mas caminhando no mesmo passo.
O espiral de escuridão segue junto com Neko, tranquilo agora, como uma sombra que aprendeu a obedecer. As estrelas ao redor pulsam quando ele passa — como se o universo estivesse reconhecendo algo que ainda não tem nome.
Neko não fala mais. Não há nada a dizer.
Há apenas o que vem depois. O peso. O serviço. O fardo imenso de carregar infinitas realidades quebradas enquanto, em algum lugar no fundo de tudo isso, uma única coisa permanece intocada:
O nome de Hime.
E a certeza de que Chronos vai sentir o peso desse nome.
Um dia.
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Fim
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