Apesar das memórias que me trazem, eu nunca deixei de gostar das flores. É difícil ressentir elas quando sempre sente o cheiro das rosas frescas com qualquer brisa que passe no seu rosto. Até hoje não consigo explicar o por quê de me cativarem tanto. Sim, são lindas, claro, mas não se abre uma loja botânica só pela beleza de algumas plantas, ou se oferece para podar as folhas da casa da sua vizinha que não o faz na frequência certa porque são boas decorações. Tem algo a mais..
Eu sei como funcionam. Sei a frequência que crescem, quando desabrocham, as condições ideias para o seu crescimento, um pouco sobre suas composições químicas, e quando fazem algo inesperado, eu consigo juntar as peças do que aconteceu e, se necessário, recomeçar. Nem sempre eu tenho essa chance com outras coisas. Pessoas, principalmente. Não importa o quanto eu analise alguém, aprenda seus costumes, seus gostos, em algum momento todo meu esforço vai por água a baixo, e não são muitas as pessoas que me dão outra chance pra recomeçar.
Mas.. Tem uma pessoa da minha casa que parece fazer parte da exceção. Eu cheguei recentemente, e me tratou muito bem, e quando chegou enfim o momento em que tudo que poderia ser vai embora, simplesmente me disse que ainda confia em mim, como se eu merecesse sua confiança. Me fez prometer que lhe pediria ajuda caso eu precisasse...
Acho que não vou entender o por quê. Não tenho coragem de olhar em seus olhos para perguntar, ou por qualquer outro motivo. Não posso ir contra a promessa, mas toda vez que lhe encaro parece que o reflexo de seus olhos continuam o mesmo daquele dia e eu posso me ver chorando através de suas pupilas. Uma flor acha que pode garantir que vai ficar parada no mesmo lugar porque não sabe que um florista pode vir e tirar ela do chão. Eu sei que não posso garantir que não vou decepcionar ninguém, mas o porém que me impede de garantir isso sou eu mesmo.
Talvez eu não devesse me comparar a uma flor, estou mais próximo de uma pétala. Um produto de algo maior que, eventualmente vai deixar de fazer parte daquilo. E mesmo assim ainda continuo uma descrição incorreta, nunca serei tão belo quanto uma pétala que cai de sua flor depois de ficar ao lado dela o tempo que conseguiu.
A previsibilidade da natureza talvez seja o que me cativa nela, e me afasta de mim mesmo. Nunca serei tão previsível quanto uma árvore que solta suas folhas durante o outono. Nunca serei tão compreendido por alguém quanto eu compreendo as plantas. Nem por mim mesmo.
Relato do personagem — perspectiva de seu autor, não um registro oficial.