Não sei exatamente há quanto tempo estou tentando encontrar as palavras certas para escrever isso. Talvez porque tenham acontecido tantas coisas que eu nem saiba por onde começar. Ou talvez porque, por mais que eu tenha muito a contar, ainda seja estranho pensar que não posso simplesmente procurar você e conversar sobre tudo isso.
Sinto sua falta Nova.
Acho que essa é uma boa maneira de começar.
Muita coisa mudou desde a última vez que tentei entrar em contato com você. Algumas coisas eu ainda estou tentando compreender, outras nem tive tempo de processar direito. Parece que, quando finalmente consigo organizar meus pensamentos sobre alguma coisa, acontece outra que me obriga a reorganizar tudo de novo.
Tenho novidades, muitas, na verdade.
*Acho que a maior delas é que agora sou a representante do Quântico.
Ainda parece estranho escrever isso. Não porque eu não compreenda o que aconteceu, mas porque compreender um acontecimento e entender tudo o que ele significa são coisas bem diferentes.*
Tenho sentido o elemento de maneiras que ainda não sei explicar completamente. É como se minha percepção sobre as coisas estivesse mudando, como se existissem possibilidades em tudo aquilo que antes eu enxergava de uma maneira muito mais simples. Consigo perceber as máquinas ao meu redor de um jeito diferente, quase como se cada uma delas carregasse infinitas respostas, infinitos caminhos possíveis. É fascinante, para ser sincera. E um pouco assustador também.
Não costumo admitir quando alguma coisa está além da minha compreensão, mas acho que seria ingenuidade acreditar que vou entender tudo de uma vez. Estou tentando aprender, observar e encontrar alguma maneira de lidar com isso sem perder o controle.
Tenho ido ao Templo dos Elementos todas as noites. Parte dele está destruída agora, e ainda é estranho estar naquele lugar e perceber tudo o que mudou. Os espaços que antes eram ocupados pelos antigos representantes guardam uma ausência difícil de ignorar. Mesmo assim, continuo indo.
Antes, minhas meditações eram voltadas principalmente para mim mesma. Para minhas habilidades, meu autocontrole e tudo o que aprendi durante o período em que estive com o Themis.
Aprendi muito naquele período. Principalmente sobre como observar minhas próprias reações antes de agir e como encontrar equilíbrio mesmo quando tudo parece acontecer ao mesmo tempo.
Agora, tenho tentado direcionar minhas meditações para o elemento Quântico. Quero compreender melhor o que existe dentro de mim, como posso evoluir e como posso usar isso para ajudar nossos marcados, especialmente aqueles que estão enfrentando a guerra.
"Nossos Marcados", parece que nunca vou me acostumar...
Não sei exatamente o que vou descobrir nesse processo, mas acredito que preciso continuar tentando. Se vou carregar essa responsabilidade, quero ao menos fazer o possível para estar à altura dela.
Acho que você entenderia isso.
Aliás, tem sido difícil acompanhar tudo o que acontece por aqui. Às vezes, tenho a impressão de que, se eu passar um único dia sem que alguma coisa extraordinária aconteça, vou começar a desconfiar de que existe algo errado.
Não que eu esteja reclamando. Ta, talvez um pouco. Mas, apesar de tudo, tenho conseguido continuar. Tenho estado com meus amigos, conversado, rido e feito minhas habituais observações quando alguém merece, incluindo tentar ouvir o lado de todo mundo e não acatar tudo que me falam.
Acho que manter essas pequenas partes da minha rotina tem me ajudado. Nem todos os dias são fáceis, mas nem todos precisam ser difíceis também. Tenho pensado bastante sobre isso ultimamente, sobre como continuar vivendo sem ignorar tudo o que aconteceu.
A morte de pessoas que amo não é algo que eu consiga simplesmente colocar de lado, como se fosse mais um problema a ser resolvido. O Aguiar, por exemplo... Ainda me pego pensando nele.
Eu o considerava muito, embora provavelmente não tenha dito isso tantas vezes quanto deveria. Era teimoso, irritante e tinha uma capacidade impressionante de me fazer sentir como se estivesse lidando com um adolescente que precisava ser lembrado das consequências das próprias decisões.
Às vezes, eu o olhava quase como uma mãe olha para um filho. Não sei se ele percebia isso, mas era assim que eu me sentia em relação a ele.
A batalha de intenção entre ele e o Ginzu terminou de uma maneira que eu gostaria que tivesse sido diferente. Ainda estou assimilando a ausência dele e tudo o que essa perda significa...
E houve você também...
Desde a guerra, tenho pensado em você com frequência. Sinto falta da sua presença, das nossas conversas e da possibilidade de compartilhar essas coisas sem precisar organizá-las primeiro em uma folha de papel.
Sinceramente, não sei exatamente o que aconteceu com você, não me contaram os detalhes certos, mas também não quero presumir uma resposta que ainda não tenho. Só espero que, onde quer que esteja, exista alguma possibilidade de nos encontrarmos novamente. Até lá, acho que vou continuar contando as novidades por aqui.
Talvez seja uma maneira de organizar meus próprios pensamentos. Talvez seja apenas uma forma de manter viva a lembrança das conversas que ainda gostaria de ter com você.
Sei que não posso controlar tudo o que acontece, por mais que às vezes tenha vontade de tentar. Estou aprendendo a aceitar que algumas respostas levam tempo e que nem sempre vou conseguir encontrar uma solução imediatamente.
Isso não significa que eu tenha deixado de procurar... Só significa que estou tentando não me perder enquanto procuro.
Tenho minha família, meus amigos e tantas coisas que ainda quero viver. Tenho responsabilidades que assumo porque são importantes para mim, não apenas porque esperam que eu as cumpra. E agora tenho o Quântico, com tudo o que ainda preciso aprender sobre ele.
Não posso deixar de viver por causa de tudo o que perdi, mas também não preciso esquecer essas pessoas para continuar... Acho que estou começando a compreender isso melhor...
Posso sentir saudade e, ainda assim, encontrar motivos para rir. Posso me lembrar de quem se foi sem deixar de prestar atenção em quem continua ao meu lado. Posso reconhecer que algumas coisas me machucam sem permitir que elas determinem tudo o que sou.
Talvez isso também faça parte do equilíbrio que tenho tentado encontrar...
Não sei se algum dia vou conseguir compreender completamente tudo o que está acontecendo comigo. O Quântico, minhas habilidades, minhas responsabilidades... Às vezes, parece que estou apenas começando a entender uma coisa quando outra surge para me mostrar o quanto ainda tenho a aprender.
Mas vou continuar... Tenho pessoas que amo, tenho caminhos que ainda quero percorrer e tenho muito mais para descobrir sobre mim mesma.
Vou continuar escrevendo quando sentir necessidade. Não sei se estas palavras chegarão a algum lugar além deste papel, mas acho que, por enquanto, isso é suficiente.
Sinto sua falta Nova...
Relato do personagem — perspectiva de seu autor, não um registro oficial.