Nova, acho que estou começando a criar o hábito de escrever para você. Talvez seja uma maneira de organizar tudo o que tem acontecido, já que, ultimamente, mal tenho tempo de compreender uma coisa antes que outra aconteça.
E, considerando as últimas novidades, acho que você vai precisar de algum contexto.
Por onde começo?
Bem, aparentemente, a minha existência é ainda mais complicada do que eu imaginava.
Você se lembra de como eu sempre fui um paradoxo? De como, de certa forma, estou no fluxo de Aurorion e, ao mesmo tempo, não estou? Pois bem. Parece que essa condição não se limita à minha relação com esta realidade.
Quando me tornei a primeira anomalia da história das Robs, acabei dando origem a algo que eu sequer sabia existir: um multiverso inteiro de versões alternativas de mim mesma.
O Robsverso...
Sim, eu sei. O nome é bastante específico. Não fui exatamente consultada sobre a possibilidade de ter um multiverso inteiro associado à minha existência, mas suponho que algumas decisões sejam tomadas sem a nossa autorização.
Existem outras Robs em diferentes Terras, cada uma com sua própria história, suas escolhas e suas experiências. Algumas coisas permanecem semelhantes entre nós, enquanto outras mudam completamente.
Descobri versões minhas que fizeram escolhas diferentes das que fiz, que viveram relacionamentos diferentes e que enfrentaram situações que eu sequer consigo imaginar para mim mesma. Uma delas foi marcada pelo Martírio, em vez do Quântico. Outra construiu uma vida ao lado da Kimyio, e não do Leo. Houve também uma que perdeu a Julia depois de perder completamente as próprias emoções.
Confesso que essa última informação me fez pensar bastante.
É estranho conhecer alguém que tem o seu rosto, suas memórias de origem, talvez até algumas das suas manias, mas que tomou caminhos tão diferentes que acabou se tornando uma pessoa distinta de você.
Ou talvez não tão distinta assim...
Afinal, todas nós começamos de algum lugar semelhante. O que muda é tudo aquilo que acontece depois.
Ainda estou tentando compreender o que significa existir como a origem de tantas outras possibilidades. Descobri que, se eu morrer, o Robsverso inteiro deixa de existir junto comigo. Não sei se consigo dimensionar completamente o peso disso, mas compreendo o suficiente para saber que não é algo que eu possa tratar com leviandade.
Não se preocupe, não pretendo começar a agir como se fosse indestrutível só porque aparentemente sou importante para a continuidade de um multiverso. Seria uma péssima decisão, e já tenho problemas suficientes sem precisar acrescentar imprudência à lista.
Existe também a Robsuprema, a primeira depois de mim, que coordena as outras versões e responde diretamente a mim. Todas as demais respondem a ela.
É uma estrutura curiosa, para dizer o mínimo.
E, como se tudo isso já não fosse informação suficiente para uma única pessoa processar, existe a Robase, também conhecida como Base Zero, ou algo do tipo...
Ela é uma versão minha que evoluiu tanto que quase morreu. Para salvá-la, o Themis a transformou em uma base onde as outras Robs podem se encontrar, em algum ponto entre o espaço e o tempo do nosso multiverso.
Ainda estou tentando compreender todos os detalhes dessa estrutura. Sei que há muito mais a descobrir, mas, por enquanto, estou me concentrando no que consigo confirmar e entender.
Durante o período em que me tornei representante do Quântico, minha instabilidade acabou provocando uma ruptura que trouxe outras versões minhas para a minha realidade. Elas apareceram uma por vez, cada uma carregando suas próprias experiências e histórias.
Foi uma experiência... peculiar.
Não é exatamente todo dia que você conhece versões alternativas de si mesma e descobre que poderia ter vivido tantas vidas diferentes.
Com a ajuda delas, consegui me concentrar e estabilizar aquela ruptura. O ponto zero foi fechado, e uma das Robs permaneceu comigo: a SpecialRobs.
Ela está aqui para me proteger, por determinação da Robsuprema, e tem sido uma companhia bastante inesperada.
A SpecialRobs é... bem, acho que a descrição mais adequada seria dizer que ela é muito parecida comigo. Talvez até demais.
Ela conversa comigo, me alerta sobre pessoas e situações que considera suspeitas e compartilha informações que descobre sobre outras realidades. Às vezes, tenho a impressão de que ela passa mais tempo comentando coisas na minha cabeça do que efetivamente descansando.
Não sei se isso é uma característica comum entre as versões de mim mesma ou se tive a sorte particular de receber justamente uma das mais falantes.
De qualquer maneira, sua presença tem sido útil. Ela conhece informações que eu ainda não teria como descobrir sozinha, e estou aprendendo a considerar tudo o que me conta sem assumir que conheço a história inteira apenas por ter ouvido uma parte dela.
Há situações em que o que acontece em outras realidades pode servir como referência, mas não necessariamente como uma conclusão sobre esta. Uma pessoa pode ter tomado decisões completamente diferentes em outro universo, e isso não significa que fará as mesmas escolhas aqui.
Acho importante manter essa distinção.
Também há uma ameaça rondando o Robsverso. Uma versão conhecida como Robsangue estaria atrás de mim e, segundo as informações que chegaram até nós, pode ter matado outras Robs.
Ainda não sei tudo o que preciso saber sobre ela, seus motivos ou a extensão do perigo que representa. Por enquanto, estou prestando atenção, reunindo informações e tomando cuidado.
Não pretendo agir com base apenas em suposições, mas também não vou ignorar um risco dessa magnitude.
Aparentemente, ser a origem de um multiverso vem acompanhado de uma quantidade considerável de responsabilidades que eu jamais solicitei.
Pelo menos a SpecialRobs parece bastante empenhada em garantir que eu continue viva. É um alívio, embora eu provavelmente devesse demonstrar isso com mais frequência.
Agora, falando sobre algo que talvez você ache ainda mais interessante: minhas habilidades estão mudando.
Desde que me tornei representante do Quântico, tenho percebido transformações na maneira como sinto o ambiente ao meu redor. As máquinas, os mecanismos, as possibilidades... tudo parece ter adquirido uma nova dimensão.
Ainda não compreendo completamente essa percepção, mas tenho tentado observá-la com atenção durante minhas meditações no Templo dos Elementos.
Também comecei a explorar uma habilidade nova: o teleporte.
Por enquanto, consigo me deslocar apenas por distâncias curtas. Ainda estou aprendendo a compreender o alcance dessa capacidade, a reconhecer seus limites e a executá-la com consistência.
Tenho praticado aos poucos, tentando entender o que acontece antes, durante e depois de cada deslocamento. Quero descobrir se existe algum padrão que possa identificar, alguma relação entre a minha concentração, a percepção do espaço e o resultado da habilidade.
Não pretendo forçar uma evolução antes de estar preparada. Se existe a possibilidade de expandir esse alcance no futuro, prefiro chegar lá compreendendo cada etapa, em vez de tentar pular diretamente para algo que ainda não consigo controlar.
Pelo que me foi explicado, essa habilidade pode evoluir bastante. O que hoje se limita a pequenos deslocamentos poderá, com o tempo e o desenvolvimento adequado, permitir que eu atravesse distâncias muito maiores, talvez até em escala global?
Ainda é estranho pensar nisso...
Já tive experiências envolvendo realidades e vislumbres do futuro, mas saber que existe a possibilidade de desenvolver essas capacidades de maneira mais consciente é diferente de simplesmente vivenciá-las.
Não quero confundir o que já experimentei com aquilo que ainda preciso aprender. Por enquanto, o teleporte é uma habilidade em desenvolvimento, e é nisso que pretendo me concentrar.
Um passo de cada vez.
Acho que essa tem sido uma das lições mais importantes para mim ultimamente: não preciso compreender tudo imediatamente, nem preciso dominar uma capacidade apenas porque sei que ela existe.
Posso observar. Posso experimentar. Posso errar, corrigir e tentar novamente.
Talvez o Quântico exija de mim justamente essa disposição para lidar com possibilidades sem presumir que conheço todas as respostas.
E, se existe algo que aprendi durante o tempo com o Themis, é que controle não significa necessariamente impedir que alguma coisa aconteça. Às vezes, significa compreender o suficiente para escolher como agir quando ela acontece.
Tenho pensado nisso todas as noites, enquanto medito no templo.
O lugar ainda carrega as marcas da guerra e a ausência dos antigos representantes. Não acho que vá me acostumar completamente com isso, mas continuo voltando porque preciso desse momento para mim mesma.
Preciso compreender o que está mudando, o que ainda permanece e como posso conciliar tudo isso com a vida que já construí.
Tenho uma família, amigos, pessoas que dependem de mim e outras que quero proteger. Agora, também tenho os meus marcados e uma responsabilidade que ultrapassa aquilo que eu conseguia imaginar até pouco tempo atrás.
Não quero que essas responsabilidades se tornem a única coisa que me define.
Continuo sendo eu, afinal.
Também tenho tentado ser mais paciente comigo mesma. Nem tudo precisa de uma resposta imediata, e nem toda mudança precisa ser compreendida no instante em que acontece.
Talvez eu esteja começando a aceitar que algumas coisas só podem ser entendidas à medida que as vivemos.
Ainda há muito que não sei sobre o Robsverso, sobre o Quântico e sobre o que posso me tornar. Não sei até onde minhas habilidades vão chegar, nem como será lidar com tudo isso quando eu estiver mais desenvolvida.
Por enquanto, tenho o que sei, o que consigo observar e a disposição de continuar aprendendo.
E, apesar de toda essa confusão, confesso que existe algo fascinante em descobrir quantas possibilidades podem surgir de uma única existência.
É estranho pensar que há tantas versões minhas espalhadas por diferentes realidades, vivendo histórias que nunca vivi. Não sei se algum dia conseguirei compreender completamente o que isso significa, mas quero conhecer melhor essa estrutura e entender qual é o meu lugar nela.
Não porque precise encontrar uma resposta definitiva para tudo, mas porque, agora que sei que ela existe, não consigo simplesmente ignorá-la.
Imagino que você teria bastante coisa a dizer sobre tudo isso.
Provavelmente mais do que eu conseguiria acompanhar de uma vez, o que seria justo, considerando a quantidade de informações que acabei de despejar nesta carta.
Por enquanto, vou continuar treinando, meditando e tentando entender minhas novas capacidades. Vou prestar atenção ao que acontece ao meu redor, cuidar das pessoas que amo e aprender a lidar com as responsabilidades que vieram junto com essa nova etapa.
E vou continuar escrevendo quando sentir necessidade.
É curioso como, mesmo diante de tantas coisas novas, ainda existem momentos em que tudo o que eu gostaria de fazer é sentar e contar as novidades a alguém que conheço.
Você continua sendo uma dessas pessoas, Nova.
Espero que esteja bem, onde quer que esteja.
Tenho muito mais para descobrir e, aparentemente, muito mais para contar.
Até a próxima carta...
— Robs
Relato do personagem — perspectiva de seu autor, não um registro oficial.