Diário de Robs

publicado em 25 de outubro de 2026

RobsEscrito por robssims

A fome não é necessariamente a ausência de algo que um dia tivemos. Às vezes, é a necessidade de alcançar aquilo que nunca conhecemos; outras, é a tentativa incessante de recuperar algo que perdemos. Pode nascer do amor, transformar-se em obsessão e, quando deixada à própria vontade, consumir até mesmo aquilo que um dia lhe deu origem.

A escuridão consome a luz. Um buraco negro atrai tudo o que se aproxima, sem se importar com o que devora. Não questiona, não hesita e não reconhece o momento de parar. Apenas consome. E talvez exista algo semelhante dentro de nós: um vazio que, quanto mais tentamos preencher, maior parece se tornar.

O perigo da fome não está em desejar, mas em permitir que o desejo se torne maior do que qualquer limite. É quando possuir já não basta, quando perder se torna insuportável e quando a possibilidade de não conseguir aquilo que queremos desperta sentimentos que preferiríamos não reconhecer. A ganância, a raiva, a inveja e até os pensamentos mais perversos podem ser manifestações desse desespero. Não porque a fome nos torne necessariamente maus, mas porque ela pode nos convencer de que saciá-la vale mais do que tudo aquilo que sacrificamos no caminho.

E talvez seja esse o verdadeiro propósito de conhecer a própria fome: descobrir o que existe além das justificativas que contamos a nós mesmos. Afinal, é fácil acreditar que possuímos controle enquanto nossos desejos não são colocados à prova. Difícil é reconhecer quem nos tornamos quando somos privados daquilo que mais queremos.

Quanto a mim, ainda me pergunto qual é o limite entre desejar compreender algo e precisar compreendê-lo a qualquer custo. Existe uma inquietação diante do desconhecido, uma necessidade de encontrar sentido naquilo que parece não possuir nenhum. Cada resposta parece prometer o fim dessa inquietação, mas também abre caminho para perguntas que antes sequer existiam.

E se não houver uma resposta capaz de saciar essa necessidade? Se cada descoberta apenas revelar algo ainda maior, mais profundo e mais incompreensível?

Talvez minha fome esteja justamente aí: na necessidade de compreender aquilo que ainda não conheço, mesmo sem saber o que encontrarei quando finalmente alcançar minhas respostas. E reconhecer isso me faz questionar até onde estaria disposta a ir. O que sacrificaria para compreender o incompreensível? O que restaria de mim se, em busca de uma resposta, eu ultrapassasse limites que hoje considero inegociáveis?

Talvez seja necessário chegar ao próprio extremo para descobrir se existe algo que jamais estaríamos dispostos a entregar. Ou talvez o extremo seja justamente o momento em que descobrimos que somos capazes de abrir mão de muito mais do que imaginávamos.

Se a escuridão consome a luz e o vazio parece consumir tudo ao seu redor, resta uma última pergunta: quando finalmente não houver mais nada a consumir, o que acontecerá com a fome?

Talvez ela desapareça.

Ou talvez, depois de consumir tudo o que existe, ela descubra que aquilo que procurava nunca esteve entre as coisas que poderia devorar.

Relato do personagem — perspectiva de seu autor, não um registro oficial.