Diário de Owliver Bubo

Dia 5 · publicado em 23 de outubro de 2026

Owliver BuboEscrito por ang3listicDia 5

Ele dormia encolhido sobre a própria cama, os joelhos levemente dobrados e os braços próximos ao peito. Mesmo adormecido, tremia de tempos em tempos, pequenos estremecimentos que percorriam seu corpo sob os cobertores finos. O frio parecia ter tomado conta do quarto inteiro, entrando pelas frestas e se acumulando no chão de pedra.

Na cama ao lado, o amigo percebeu o movimento. Kyros abria os olhos lentamente e ficara alguns segundos observando Bubo, ainda sonolento. Quando viu outro tremor percorrer o corpo dele, suspirou e se levantou da própria cama. Kyros caminhou até ele, puxando o cobertor que estava quase escorregando de seus ombros e o ajeitou cuidadosamente, cobrindo-a até o pescoço. Depois, pegou a própria manta e a colocou por cima dele, formando uma camada extra contra o frio. Kyros então pegou a tocha que estava presa ao suporte da própria mochila, acendendo-a. A luz alaranjada preencheu a escuridão, projetando sombras suaves pelas paredes. Por garantia, ele puxou uma cadeira e se sentou ao lado da cama.

— Melhor assim... — murmurou, quase num sussurro.

Bubo acordou com a pequena iluminação agora alí presente.

– Isso tudo pelo frio? – perguntou, deixando escapar um sorriso. Então, abriu os braços e puxou o amigo para perto, envolvendo-o em um abraço caloroso.

– Não queria você morrendo congelado – respondia, saindo do abraço um tempo.

Bubo pegara o casaco da academia, que era formado por um tecido mais resistente, vestindo-o enquanto conversava sobre o que iriam fazer hoje: decidiram por ir em minerar. Apenas em linhas retas, sem nenhuma caverna para evitar riscos.

Bubo e Kyros encontraram Lance e Lizz pouco depois, quando atravessavam o corredor que levava para a área de trás da base. Lizz foi a primeira a reconhecê-los e ergueu a mão em um cumprimento animado e um som de "Ai bolsonaro g-"

– Olha só quem apareceu – comentou Bubo, sorrindo. – O amor de 'mamãe'

Lance, que acabara de passar pelo mesmo corredor observou os dois por alguns segundos antes de se aproximar.

— Fazendo o que?

Bubo e Kyros trocaram um rápido olhar.

– Um celular novo, o nosso caiu na água e queimou – respondeu Bubo, seguindo de um "é" de Kyros.

– Como o celular dos dois caiu na água? – Lance insistiu, em tom descontraído. Kyros deu de ombros

– A gente tava tirando foto e caiu

Kyros deu de ombros.

Houve uma pequena pausa.

– Lá em baixo... –disse Bubo.

– Aí tem que fazer outro, né?

A resposta de Kyros veio acompanhada de um sorriso tão vago que quase parecia ensaiado.

Lance estreitou os olhos, claramente tentando entender. Lizz, por outro lado, apenas soltou uma risadinha. Ele permaneceu encarando os dois por mais alguns segundos, como se esperasse que alguma informação escapasse por acidente. Não escapou. Bubo olhava com uma tensão por cima de seus braços

– E sabe aquela flor?...– murmurou, finalmente. – Ela não durou tanto assim.

– Eu imaginei... Passei pela vila e comprei essas daqui. Elas são se plástico, vão durar mais. – Lance sorria, entregando-as. Bubo agradecia, enquanto o outro olhava para baixo. Naquela plataforma parecia existir só eles dois.

– Que isso? – Ele apontava para uma marca branca no chão que cobria 2 metros em um formato perfeitamente retangular.

Bubo sorriu, balançando a cabeça.

– Uma ponte lá pra baixo. Facilita pra explorar

Bubo descia para o andar de baixo, levando o garoto consigo.

– Ficou bonito

– Foi a Seraphine... Eu acho. É uma pena que não consegui trazer minha flor favorita pra cá.

Lance olhou para ele de lado.

– Que flor?

– Orquídea Azul. Só tem em pântanos e bom... Não tem nenhum perto.

– Definitivamente muito difícil.

Lance soltou uma risada curta. Os dois voltavam pelo mesmo caminho anterior, subindo pelo elevador.

Lance e Lizz continuaram conversando, desviando o assunto para alguma história antiga que os dois pareciam compartilhar. Enquanto Lizz ria de alguma coisa que Lance havia dito, Bubo lançou um olhar discreto para Kyros.

– Vem cá por um segundo? – Bubo murmurou.

Kyros entendeu imediatamente, apenas assentiu.

Os dois se afastaram sem chamar muita atenção, deixando Lance e Lizz entretidos na própria conversa. Só quando chegaram a uma parte mais vazia do corredor, longe o bastante para que suas vozes não fossem ouvidas, Bubo parou.

Por alguns segundos, ficou em silêncio.

– Você ainda tem três, não é?

Kyros olhou para ele.

– Três vidas? Tenho.

Bubo baixou os olhos.

– Eu só tenho uma. Perdi mais uma tentando pegar outras coisas.

A leveza que havia em sua voz desapareceu. Kyros permaneceu calado, esperando que ele continuasse.

– Se eu morrer de novo... — Bubo passou a mão pela nuca, tentando tratar aquilo como se fosse apenas mais um detalhe. – Não tem outra depois dessa.

– Eu sei, você tem que tomar cuidado.

Bubo olhou novamente para a parede em direção dos dois, que pareciam continuar conversando tranquilamente.

– Se descobrirem que eu só tenho uma... vão começar a me tratar diferente. O professor vai querer me trancar na casa, é justamente isso que eu não quero.

Kyros respirou fundo e cruzou os braços.

– Então continuamos mentindo.

Bubo deu um pequeno sorriso.

– Não precisamos mentir.

– Não?

– Só não contamos a verdade.

Kyros soltou uma risada abafada.

– Isso é literalmente mentir.

– Detalhes.

Bubo ajeitou a expressão antes de retornar, como se aquela conversa jamais tivesse acontecido.

– Eles foram fofocar sem a gente – Liz dizia.

Os 4 jogaram conversa fora por alguns minutos. Kyros se ausentou enquanto eles conversavam.

– Sabe... – Bubo se aproximou de Lance, desviando o olhar – Se você não tiver nada pra fazer depois... A gente pode sair. Como amigos, Lizz. Nem vem.

Lance sorriu, concordando

– Pode ser

Ficaram alí conversando por um tempo, antes de Bubo seguir para dentro da casa, se despedindo para procurar Kyros.

"Peninhas" procurou por seu amigo durante um tempo, conhecendo Brumea no caminho, uma das professoras do local, antes de ser chamado por um dos professores até um grupo de alunos: Lá estava Kyros, com alguns outros alunos. Um deles se assemelhava bastante com Yuki, aquele homem que o manteu anos preso.

"Não tem como, ele morreu lá." Passava por sua cabeça, afastando o pensamento de sua cabeça

– Conte. – O professor dizia

– Ontem eu vi 'ela' pegando papel higiênico e jogando na sala da diretora. – O garoto que se assemelhava com Yuki dizia.

Bubo parou no meio do caminho.

— ...Eu?

— Você mesmo. – Ele continuava com a acusação.

Alguns olhares se voltaram para Bubo.

— Eu? — perguntou mais uma vez, incrédulo.

— Você.

— Eu nem sei onde é essa sala.

— Eu vi.

Bubo olhou para Kyros, esperando algum tipo de intervenção. O amigo, entretanto, permanecia em silêncio, observando a situação com atenção.

O professor olha para Bubo

— Sua equipe vai perder 10 pontos por isso.

Bubo parecia incrédulo enquanto o professor não dava espaços para explicações. Respirou fundo, tentando controlar a irritação antes de ser chamado por Rogério.

– Vem comigo por um minuto?

Rogerio o chamava para a sala dos professores. Bubo imaginava que seria uma bronca por aquilo que não havia feito mas... Lizz estava sentada em uma das cadeiras, enquanto Lance permanecia próximo dela, de braços cruzados.

– Sente-se.

Bubo encontrava a cadeira mais próxima, apoiando o peso sobre ela.

– Quantas vidas você tem?

Bubo congelou. Por um segundo, teve a impressão de que não havia escutado direito.

– O quê?

– Quantas vidas você tem?

O silêncio que se seguiu pareceu muito maior do que realmente era. Bubo olhou para Lance, Depois para Lizz... Ela evitou seu olhar. Seu coração começou a bater mais rápido. Bubo não sabia por que estavam perguntando aquilo. Não sabia quem havia contado. Não sabia sequer se eles já tinham alguma suspeita, então respondeu a primeira coisa que lhe veio à cabeça.

– ...Três?

Rogério o observou atentamente, franzindo a testa.

– Tem certeza?

Ninguém respondeu. Bubo sentiu a garganta apertar.

– A lizz contou sobre sua conversa com Kyros.

Rogerio continuava.

– Olha, eu não estou aqui para te prender em lugar nenhum. Sou seu professor, não seu carcereiro. – Rogério manteve a voz baixa, sem tirar os olhos dele. – Só vou pedir que tome muito mais cuidado. A responsabilidade sobre você é minha. Qualquer um aqui sacrificaria uma vida para te dar outra.

Bubo permaneceu em silêncio. Por alguns segundos, pareceu que simplesmente não tinha uma resposta e então baixou a cabeça.

– Eu não quero que façam isso. Não quero que alguém perca uma vida por mim.

– Bubo... – Lance tentou interromper, antes de ser cortado pelo mesmo com quem falavam.

– Porque e se eu esquecer? – A pergunta saiu tão baixa que quase se perdeu no silêncio da sala. Ele apertou os dedos contra o tecido da própria roupa. – E se amanhã eu acordar... e não lembrar?

Sua voz comecara a falhar.

– E se eu olhar para vocês e não souber quem são? – Bubo tentou respirar fundo, mas o ar saiu trêmulo. Ele levou uma das mãos ao rosto, limpando rapidamente uma lágrima que havia escapado, outra veio logo depois. – Você fala como se fosse simples. "Sacrifica uma vida e me dá outra" – Mas não é uma troca justa, é egoismo.

Ele tentou conter o choro, mas não conseguiu.

– Posso acordar no dia seguinte e perguntar quem vocês são. – Bubo cobrira a boca com a mão, tentando recuperar o controle. – Eu não quero isso.

A sala permaneceu em silêncio. Lizz abaixou completamente o olhar e até Lance havia perdido a expressão vazia que carregava a maior parte do tempo e então, se afastou da cadeira.

– A gente gosta de você, Owli. – Bubo ergueu os olhos, ainda com o rosto molhado pelas lágrimas. – E eu não estou dizendo isso para fazer você se sentir melhor. Nem porque quero que aceite o que estamos dizendo, mas se um dia você estiver no limbo e eu tiver que escolher entre deixar você morrer ou gastar uma das minhas vidas para te trazer de volta... eu vou escolher você. Lizz concordava, soltando um "eu também"

Bubo balançou a cabeça, tentando interrompê-lo.

— Lance...

— Ainda tenho seis.

A voz dele permaneceu firme.

— Seis vidas. E, se eu tiver que perder uma para que você continue aqui, eu não vou ficar contando o quanto me restou depois.

Bubo apertou os lábios, tentando conter o choro.

— Mas e se eu esquecer de ti amanhã mesmo?

– Você ta se esforçando pra lembrar.

Bubo ficou imóvel.

— Se você acordar e não souber quem eu sou, tudo bem, eu me apresento de novo. Se esquecer meu nome, eu digo. Se esquecer o que vivemos, eu conto. Se esquecer de mim, não faz mal, a gente lembra.

Ele continuava.

– Além disso, você foi diferente. Enquanto todo mundo estava tentando descobrir como usar a magia da Hana, como convencer ela a fazer alguma coisa por eles, como transformar o que ela tinha em alguma vantagem... você só ensinou ela a fazer um suco.

Rogerio sorria, enquanto soltava uma risada dizendo quantos sucos havia tomado por causa dela

— Você ficou lá, explicando como cortar as frutas, quanto colocar de água, quando mexer. Não pediu nada em troca. Não tentou fazer ela usar a magia. Você só ensinou uma coisa que ela deveria aprender. Talvez para você tenha sido uma coisa pequena. Mas, para ela, não foi.

Lance se abaixou um pouco, ficando mais próximo da altura dele.

— Foi uma das primeiras vezes que alguém olhou para a Hana e não viu uma ferramenta pra benefício próprio. Então não me diga que eu não deveria gastar uma vida por você. Eu sei exatamente o que estou escolhendo. Porque mesmo que você esqueça o que fez, a gente lembra.

O silêncio que havia tomado a sala aos poucos se desfez, embora Bubo ainda limpasse de vez em quando as lágrimas que insistiam em permanecer no rosto, ele parecia determinado a não deixar que o clima continuasse tão pesado.

Lance apenas levou a mão até a mochila que havia deixado em suas costas

– Eu iria te entregar no final da semana, mas acho que a situação faz isso ser urgente. Vou deixar na sua casa. É uma harpa, ela me ajudou bastante no meu primeiro ano.

Bubo soltou uma risada baixa, agradecendo. Por alguns instantes, ele pareceu genuinamente feliz com o presente. Queria abraças Lance, mas se lembrava sobre o comentário de alguns dias atrás "Você gosta de ficar perto, hein?". Até que sua expressão mudou.

– Aliás, professor. Quebrando o clima tenso...

Rogério olhou para ele.

– O quê?

– Eu sofri uma acusação de hoje.

O ambiente voltou a ficar um pouco mais sério.

– Um garoto de Nyx disse que me viu jogando papel higiênico na sala da diretora. O professor da casa amarela disse que minha casa perderia pontos por isso mas... Eu não me lembraria nem onde é a sala dela... Nem quem ela é.

Lance cruzou os braços. Rogerio olhava atentamente para Bubo

– Você tava com o Raijin e Kyros ontem, né?

– Tava... Eu acho.

Lance concordava com a cabeça

– Eu posso confirmar, eu vi ele com os dois.

– Só sei que é estranho ele querer me acusar disso. – Rogério permaneceu atento à Bubo – Ele disse que reconheceu minha roupa, meu cabelo... que me viu saindo do banheiro mas... Eu vou no banheiro feminino. Até pra não ter que ficar explicando que eu sou um garoto e tomar tempo dos outros ou arrumar confusão

Rogério ergueu os olhos, já saindo da sala.

– Eu vou conversar com o Apollo sobre isso, fica tranquilo.

– Deviam criar um banheiro pra não binários. – Lizz dizia. – Vou pedir isso.

– Acho que já está ficando tarde. — Ele se levantou. – Vamos deixar o encontro para amanhã.

Bubo sorriu pela primeira vez de verdade desde que havia entrado naquela sala, acenando com a cabeça

Lizz, porém, permaneceu parada por alguns segundos, olhando para Bubo, depois olhou para Lance, depois novamente para Bubo...

– Eu realmente não entendo os humanos.

Lance parou, enquanto Lizz cruzava os braços.

– Vocês são muito estranhos.

Ela apontou discretamente para Lance.

– Vocês passam o tempo inteiro dizendo que não sentem nada um pelo outro, mas ficam se olhando desse jeito, chamando pra encontro...

Bubo ficou vermelho.

– Lizz!

– O quê? É verdade.

– Não começa.

– Eu só estou dizendo que não entendo por que vocês fingem não ter sentimentos românticos quando está praticamente escrito na testa dos dois.

O silêncio caiu sobre a sala. Os dois pareciam ignorar de propósito o que Lizz havia dito. Lance caminhou até a porta, mas antes de sair, o alado o interrompeu.

– Tenta não morrer até amanhã, ainda quero meu encontro.

Lance sorriu, concordando e saindo pela porta

– Não vou, relaxa.

Bubo voltava seus olhos para Lizz

– Você vai me ajudar a escolher uma roupa pra mim.

– A ROUPA DE NÃO BINÁRIO!

Owli sorria, caminhando pra fora da sala seguido de sua filha, indo em direção a própria casa

– E eu não quero usar vestido, ouviu?

Relato do personagem — perspectiva de seu autor, não um registro oficial.