Já faz um tempo que estou aqui em Ethereal.
É estranho pensar que, depois de tudo que aconteceu, eu simplesmente acordei em uma academia. Pessoas estudando magia, frequentando aulas, fazendo amizades... vivendo suas vidas.
E eu aqui, pensando em como sair.
Não que eu tenha algo contra esse lugar. Pelo contrário, tem muita coisa interessante aqui, principalmente sobre magia e como ela funciona. Em outras circunstâncias, provavelmente passaria meses pesquisando tudo isso.
Mas não consigo parar de pensar no que está acontecendo lá fora.
A guerra não acabou só porque estamos aqui.
E eu não consigo simplesmente fingir que acabou.
Às vezes fico pensando em quantas vezes já passamos por isso. Quantas vezes achamos que finalmente teríamos um pouco de paz, que conseguiríamos construir alguma coisa, viver normalmente...
E aí aparece alguma entidade, algum ser supostamente superior, alguém que acredita ter o direito de decidir o que acontece com a nossa existência.
Sinceramente? Estou cansado dessa merda.
Cansado de ser tratado como uma cobaia. Como se nossas vidas fossem apenas variáveis dentro de algum experimento que sequer compreendemos.
A Mãe, Chronos... quantos outros ainda existem?
E quantos vão aparecer depois deles?
Porque esse é o problema. Mesmo que consigamos acabar com tudo isso, o que impede que outra coisa simplesmente ocupe o lugar deles?
Não quero passar o resto da minha existência lutando contra um novo deus a cada vez que algum deles decide brincar com nossas vidas.
Eu só queria que nos deixassem em paz.
Parece uma coisa tão simples.
Mas, aparentemente, querer viver sem que alguém controle seu destino é pedir demais.
E tem outra coisa que vem me incomodando.
Bella e Metal.
Eu não quero que elas se machuquem. Não quero que tenham que passar por tudo isso novamente, principalmente por minha causa.
Só que também não quero que elas pensem que estou simplesmente abandonando as duas.
É complicado.
Quanto mais me aproximo de alguém, mais sinto que tenho algo a perder. E, olhando para trás, não consigo ignorar quantas pessoas importantes já perdi.
Júpiter...
Ainda penso nele.
E penso também nas decisões que tomei, nos experimentos, em tudo que poderia ter feito de outra forma.
Sei que não dá para atribuir todas essas perdas ao simples fato de eu me importar com alguém. Isso nem faria sentido.
Mas é difícil convencer minha cabeça disso quando tanta coisa deu errado.
Talvez seja por isso que não quero criar novos vínculos aqui.
Não porque odeie as pessoas. Nem porque me considere melhor que elas.
Muito pelo contrário.
Eu só não quero mais ninguém envolvido nos meus problemas.
E, sinceramente, também não quero descobrir como é perder mais alguém.
Quanto à Bella e à Metal, preciso encontrar uma forma de resolver isso sem machucar nenhuma das duas.
Não sei ainda como.
Talvez essa seja a parte mais difícil de tudo.
Eu consigo passar horas pensando em Aeonitas, frequências anímicas, fissuras e possibilidades de atravessar realidades.
Mas basta envolver sentimentos que parece que toda a minha capacidade de raciocínio vai embora. Impressionante.
Enfim...
Preciso encontrar uma forma de sair de Ethereal.
Não pretendo sair correndo sem entender as consequências. Já tomei decisões impulsivas o suficiente para saber como isso termina.
Preciso estudar, me preparar e descobrir o que ainda me falta.
A Mãe continua sendo meu objetivo.
Quero acabar com ela.
E não pretendo aceitar que outro ser apareça depois reivindicando o direito de fazer exatamente as mesmas coisas.
Não importa se é uma entidade, um Celestial ou qualquer outra coisa que se considere acima de nós.
Não me interessa ocupar o lugar deles. Não quero o poder que possuem, nem que alguém me reconheça por enfrentá-los.
Quero apenas que parem.
Talvez eu nem consiga. Seria bastante arrogante acreditar que posso simplesmente enfrentar qualquer coisa que exista.
Mas isso não significa que vou aceitar tudo calado.
Já fui uma cobaia por tempo demais.
E, se existe alguma coisa que todas essas experiências me ensinaram, é que até aquilo que parece impossível merece ser investigado.
Por enquanto, Ethereal...
Preciso pensar.
E, principalmente, preciso descobrir como fazer tudo isso sem perder as poucas pessoas que ainda me importo.
Porque, no fim, não estou tentando salvar o mundo. Só quero que parem de decidir o que fazer com a nossa vida.
Relato do personagem — perspectiva de seu autor, não um registro oficial.