Projeto A.C.A. — Amortecedor de Campo Anímico
Registro pessoal de pesquisa — Netto Spadoni
Academia Arcana de Ethereal
Existe uma coisa que vem me incomodando há bastante tempo.
Eu já enfrentei todo tipo de magia. Já estudei ocultismo, manipulação energética, construí mecanismos para lidar com coisas que provavelmente ninguém deveria estar tentando controlar...
Mas ainda existe um tipo de ataque contra o qual eu não sei exatamente como me defender.
Um ataque à própria alma.
E isso é um problema bem maior do que parece.
Uma armadura protege o corpo. Uma barreira mágica pode impedir que determinada quantidade de energia alcance seu alvo. Até mesmo uma maldição, dependendo de como foi construída, pode ser estudada, isolada e interrompida.
Mas e quando o alvo não é o corpo?
E quando alguém simplesmente tenta interferir naquilo que permite que você continue sendo você?
Eu já senti algo semelhante durante aquela batalha em Ryu no Su.
Lembro de como minha mente estava completamente cheia de pensamentos. Tentei concentrar minha intenção, mas estava analisando tanta coisa simultaneamente que não conseguia manter o foco.
Foi só quando fechei os olhos e parei de tentar compreender tudo naquele instante que consegui perceber aquele pulso.
A presença anímica do meu adversário.
Não sei descrever exatamente o que senti, mas aquilo me mostrou uma coisa: existe alguma forma de interação entre nossas almas que não depende dos sentidos convencionais.
E se eu consegui perceber aquela presença, será que também seria possível perceber o momento em que outra presença tenta interferir na minha?
Essa é a primeira questão.
A segunda é ainda mais interessante.
Se uma interferência pode ser percebida, será que ela também pode ser reduzida antes de causar dano?
A alma não pode simplesmente ser isolada
Inicialmente, pensei em utilizar uma espécie de blindagem anímica.
O ferro possui propriedades interessantes nesse aspecto. Ele pode bloquear ou desviar determinadas manifestações de energia anímica, permitindo construir instrumentos protegidos contra interferências externas.
Seria tentador simplesmente envolver o corpo com uma estrutura desse tipo.
Mas existe um problema.
Se a alma realmente é uma interação contínua entre o corpo e o mundo, então bloquear toda essa interação seria... bem, uma estupidez.
É como tentar proteger uma chama impedindo que qualquer quantidade de oxigênio entre em contato com ela.
Você consegue impedir que o vento a apague.
Mas também impede que continue queimando.
O problema não é impedir a entrada de energia.
É descobrir qual energia deveria continuar entrando e qual interação precisa ser limitada.
Isso muda completamente a proposta.
Eu não preciso construir uma muralha ao redor da alma.
Preciso construir algo que interfira o mínimo possível em seu funcionamento natural, mas que responda quando determinadas perturbações ultrapassarem um limite.
Uma espécie de amortecedor.
Na engenharia, amortecedores existem para reduzir a energia associada a movimentos indesejados. Eles não eliminam todas as forças que atuam sobre uma estrutura. Apenas ajudam a impedir que determinadas oscilações se tornem destrutivas.
Talvez seja possível fazer alguma coisa semelhante com a ressonância anímica.
E o melhor é que isso não exigiria necessariamente uma quantidade absurda de energia.
Pelo contrário.
Se o mecanismo puder funcionar predominantemente por meio das propriedades dos materiais, talvez a maior parte do trabalho seja realizada de forma passiva.
Isso seria ideal aqui em Ethereal.
Não quero provocar uma alteração dimensional tentando construir uma proteção que deveria justamente me manter vivo.
Seria um jeito particularmente idiota de morrer.
Primeira hipótese — A alma possui um padrão de funcionamento
O R.A.S.E. nasceu de uma ideia que eu ainda considero bastante promissora.
A possibilidade de que a alma produza um campo de ressonância associado à sua existência.
Não necessariamente um campo idêntico ao eletromagnético. Aliás, assumir isso seria um erro.
Mas algo capaz de interagir com a matéria e, consequentemente, produzir efeitos mensuráveis.
Se esse campo existe, ele provavelmente não permanece perfeitamente constante.
Nossas emoções mudam. Nossa intenção muda. O corpo se cansa, a respiração se altera, nossa concentração oscila.
Então, em vez de procurar uma frequência única e imutável, talvez o mais correto seja procurar um padrão.
Uma faixa de comportamento.
Uma espécie de assinatura anímica que varia dentro de determinados limites sem deixar de representar o mesmo indivíduo.
Isso é importante porque eu não quero construir um mecanismo que interprete qualquer alteração como uma ameaça.
Se minha alma reage à tristeza, à alegria ou à raiva, essas mudanças fazem parte de mim.
Bloqueá-las seria quase a mesma coisa que tentar impedir minha alma de continuar mudando.
E, sinceramente, já tem gente demais tentando decidir aquilo que eu posso ou não posso ser.
Não vou inventar uma máquina para fazer a mesma coisa.
Portanto, o primeiro objetivo deve ser identificar quais oscilações são características do meu funcionamento normal.
Só depois poderia investigar alterações produzidas por influências externas.
E mesmo assim seria necessário tomar cuidado.
Uma interferência diferente não significa necessariamente uma interferência hostil.
A presença de Bella, por exemplo, pode modificar meu estado emocional sem que exista qualquer ataque acontecendo.
O dispositivo precisaria distinguir uma mudança natural de uma perturbação imposta.
E talvez essa seja a parte mais complicada de todo o projeto.
Segunda hipótese — A ressonância pode permitir amortecimento
Se dois sistemas anímicos interagem, precisamos investigar como ocorre a transferência de energia entre eles.
Na física convencional, quando dois sistemas oscilatórios possuem frequências próximas, pode acontecer uma transferência de energia mais eficiente.
É o princípio da ressonância.
Mas existe também outro fenômeno que me interessa: o amortecimento.
Uma oscilação pode diminuir quando parte da sua energia é desviada, dispersada ou convertida em outra forma.
É importante lembrar que energia não desaparece.
Se eu conseguir reduzir a energia que chega ao meu circuito, essa energia necessariamente terá outro destino.
E isso significa que um dispositivo protetor precisa responder a duas perguntas.
A primeira é: quanto da interferência consegue impedir que me alcance?
A segunda: para onde vai a energia que não chegou?
Se eu simplesmente capturar tudo dentro de um cristal, posso acabar construindo uma pequena bomba anímica.
Se devolver a energia ao ambiente sem controlar seu comportamento, talvez esteja apenas transferindo o risco para outra pessoa.
E se tentar anulá-la por meio de outra oscilação, precisarei demonstrar que as duas manifestações realmente permitem esse tipo de interferência.
Ainda não tenho essa demonstração.
Mas consigo imaginar um princípio de funcionamento.
Uma camada externa poderia desviar parte da energia incidente, enquanto uma estrutura de condução permitiria que essa energia percorresse um caminho separado do meu circuito.
O objetivo seria reduzir o acoplamento entre a interferência externa e minha própria manifestação anímica.
Não impedir que minha alma exista.
Apenas dificultar que algo vindo de fora consiga impor sua oscilação sobre ela.
É uma diferença pequena na descrição.
Mas enorme na prática.
Terceira hipótese — O mecanismo pode funcionar sem uma grande fonte de Aeon
Essa talvez seja a parte mais importante.
Eu não posso construir um equipamento que precise concentrar energia suficiente para deformar o espaço de uma dimensão de bolso.
Se depender de uma grande fonte de Aeonitas, uma reação contínua ou uma estrutura de realimentação, o próprio dispositivo pode se tornar mais perigoso que o ataque.
Então pensei em começar com uma arquitetura bastante simples.
Uma pequena peça externa, talvez utilizada sobre o peito ou presa à roupa, composta por materiais que já possuem comportamentos conhecidos diante da energia anímica.
O ferro poderia funcionar como blindagem parcial, desviando algumas interferências.
A prata seria utilizada para perceber alterações no fluxo anímico, especialmente nas manifestações associadas aos seres vivos.
O quartzo poderia servir como referência oscilatória, ajudando a estabilizar a leitura dos componentes.
O cobre poderia conduzir energia entre partes do dispositivo sem conservar uma impressão duradoura daquilo que passou por ele.
Mas há um detalhe essencial.
Eu não quero utilizar uma cápsula fechada de ferro.
Se a blindagem bloquear todas as interações, posso acabar prejudicando o próprio funcionamento anímico que estou tentando preservar.
Talvez a solução seja uma geometria parcial, com pequenos segmentos isolados, de maneira que o fluxo ambiental normal continue existindo.
Não tenho como afirmar que isso produziria uma proteção seletiva. A geometria precisaria ser estudada.
Mas parece um ponto de partida muito mais razoável do que tentar construir uma barreira absoluta.
E, inicialmente, eu nem colocaria uma Aeonita no dispositivo.
Uma fonte cristalina poderia facilitar a ressonância, mas também introduziria outra assinatura energética perto do corpo.
Se uma Aeonita é capaz de modificar gradualmente a alma de quem a carrega, manter uma dessas pedras ligada continuamente a um equipamento de proteção pode gerar exatamente o problema que eu quero evitar.
Principalmente no meu caso.
Já tive contato direto demais com a Amarela para sair adicionando outras frequências à minha existência sem entender as consequências.
Primeiro, preciso descobrir se o conceito funciona com materiais passivos.
Depois, se os resultados justificarem, posso estudar uma referência cristalina externa, isolada e utilizada apenas durante medições controladas.
Nada de depender de uma nova Aeonita para continuar existindo.
Quarta hipótese — A intenção pode participar da defesa
Aqui existe uma questão que nenhuma peça de metal vai resolver sozinha.
A intenção.
Durante meu confronto anímico, percebi que havia uma diferença enorme entre simplesmente pensar em resistir e realmente concentrar toda a minha vontade nessa resistência.
Quando fechei os olhos e eliminei parte das distrações, consegui perceber uma presença que antes estava perdida no meio de todos os outros estímulos.
Isso me faz pensar que a estabilidade da própria intenção pode funcionar como uma espécie de defesa natural.
Não necessariamente porque uma alma mais determinada possua mais energia.
Mas talvez porque uma intenção coerente seja mais difícil de perturbar.
É como tentar alterar o movimento de um sistema que oscila de maneira organizada.
Se ele possui um padrão estável, uma influência externa precisa produzir uma perturbação suficientemente significativa para modificar esse comportamento.
Claro que isso ainda é uma analogia.
Uma alma não é simplesmente um pêndulo.
Mas talvez o princípio seja útil.
A proteção física poderia reduzir parte da interferência externa, enquanto o treinamento de intenção ajudaria a manter o funcionamento anímico estável.
O dispositivo não criaria minha vontade.
Não deveria tentar controlá-la.
Apenas precisaria me avisar quando meu estado estivesse sofrendo uma alteração incomum.
Talvez por um pequeno indicador físico.
Uma vibração, um movimento de agulha, qualquer sinal que não precise enviar mais energia diretamente ao meu circuito.
E, a partir desse aviso, eu mesmo poderia tentar recuperar a concentração.
Isso é importante.
Não quero uma máquina decidindo como minha alma deve se comportar.
Quero uma ferramenta que me permita perceber quando alguma coisa está tentando interferir nela.
Quinta hipótese — Proteger não significa tornar a alma imutável
Existe uma consequência que eu preciso considerar antes de construir qualquer coisa.
Se a alma é plástica, então sua capacidade de mudar também faz parte daquilo que a mantém viva.
Um dispositivo que tente conservar permanentemente minha assinatura atual talvez impeça não apenas alterações prejudiciais, mas também adaptações naturais.
Imagine passar anos utilizando uma máquina que obriga sua alma a responder sempre da mesma maneira.
O que aconteceria quando ela fosse removida?
Será que o circuito voltaria a funcionar normalmente?
Ou teria se tornado dependente daquela estabilidade artificial?
Não sei.
Mas os registros de artefatos que deram errado mostram que uma ferramenta pode cumprir perfeitamente sua função e, ainda assim, produzir consequências terríveis.
Às vezes o erro não está na construção.
Está naquilo que pedimos que ela faça.
Por isso, a instrução do A.C.A. não pode ser simplesmente "mantenha minha alma estável".
Isso é vago demais.
E perigoso demais.
O objetivo precisa ser muito mais limitado:
Reduzir temporariamente perturbações anímicas externas identificáveis, sem interromper o fluxo natural entre o portador e o ambiente.
Essa descrição ainda precisa ser refinada.
Mas já é melhor do que tentar construir uma máquina para impedir qualquer alteração na minha existência.
O que seria, pensando bem, praticamente uma prisão.
O problema do desligamento
Existe mais uma coisa.
Todo sistema de proteção precisa falhar de uma maneira que não torne a situação pior.
Se o dispositivo começar a acumular energia, ele precisa interromper sua operação antes que essa energia ultrapasse o limite tolerável.
Se o circuito de detecção perder a referência, a máquina não pode continuar tentando corrigir uma interferência que talvez nem exista.
E, se uma fonte externa tentar utilizar o aparelho como caminho até minha alma, preciso conseguir separá-lo fisicamente do corpo.
Não quero nenhum vínculo permanente.
Nenhuma alimentação direta do meu circuito.
Nenhuma estrutura capaz de continuar funcionando indefinidamente depois que eu decidir desligá-la.
Especialmente aqui.
Uma dimensão de bolso não é o lugar onde quero descobrir o que acontece quando um mecanismo de realimentação entra em ressonância descontrolada.
O protótipo teria que funcionar com uma quantidade extremamente limitada de energia.
Sem condensação anímica.
Sem acesso ao Reservatório.
Sem tentativa de dobrar o espaço.
Sem âncoras dimensionais.
A única coisa que pretendo alterar, se a teoria estiver correta, é a maneira como uma pequena estrutura material interage com uma perturbação anímica local.
Isso não garante ausência de risco.
Mas pelo menos mantém a escala do experimento dentro de algo que consigo estudar e interromper.
Como eu saberia se realmente funcionou?
Esse é o problema de qualquer teoria interessante.
É muito fácil imaginar um mecanismo que parece funcionar.
Difícil é provar.
Se eu construir um dispositivo e sentir que minha alma está mais protegida, isso não significa absolutamente nada.
Pode ser apenas uma sensação de segurança.
Preciso de medições.
Primeiro, determinar como os materiais respondem a fontes anímicas conhecidas, sem envolver uma pessoa.
Depois, comparar a transmissão dessas interferências com e sem a estrutura de amortecimento.
Se o sistema reduzir parte da transmissão sem acumular energia perigosamente, teremos um primeiro resultado.
Mas isso ainda não provaria proteção contra ataques à alma.
A etapa seguinte seria investigar se esse mesmo comportamento pode ocorrer próximo de um circuito vivo, sem prejudicar sua condução natural.
E só então, com supervisão e limites bem definidos, faria sentido pensar em testes de proteção propriamente ditos.
Não preciso descobrir tudo em um dia.
Já aprendi, da pior maneira possível, que tentar acelerar determinados processos só aumenta a quantidade de coisas que podem dar errado.
Também não vou utilizar Bella, Metal ou qualquer outra pessoa próxima como cobaia.
Aliás, nem eu deveria ser a primeira.
Se consegui aprender alguma coisa depois de tantos experimentos questionáveis, espero que pelo menos seja isso.
Para que eu realmente quero construir isso?
No começo, pensei apenas em uma maneira de sobreviver a outro confronto anímico.
Mas, quanto mais desenvolvo a ideia, mais percebo que existe uma aplicação muito maior.
Eu não vou estar presente em todas as batalhas.
Não consigo proteger todo mundo.
Nem sempre vou conseguir chegar a tempo.
E é justamente isso que mais me incomoda.
Se esse mecanismo funcionar, talvez seja possível desenvolver versões pequenas, que outras pessoas possam utilizar sem precisar possuir a mesma capacidade de percepção anímica que eu.
Não estou falando de tornar ninguém invulnerável.
Isso seria absurdo.
Mas talvez seja possível oferecer alguns segundos de aviso.
Talvez reduzir uma interferência o suficiente para que alguém consiga se afastar.
Talvez impedir que um primeiro ataque provoque um dano irreversível.
Alguns segundos.
É estranho pensar que, depois de tudo que já tentei construir, uma das ideias que mais me interessam agora seja uma máquina cuja maior função pode ser simplesmente ganhar alguns segundos.
Mas eu sei o quanto alguns segundos podem significar.
Eu sei como é precisar tomar uma decisão quando já não existe mais tempo.
E sei o que acontece quando a única alternativa que encontramos é colocar o próprio corpo na frente de alguma coisa.
Não quero que essa seja sempre a resposta.
...
No fim, acho que o projeto é mais simples do que parecia.
Não quero construir uma máquina que controle a alma.
Quero descobrir se é possível preservar sua liberdade de interação, enquanto reduzo aquilo que tenta forçá-la a mudar.
Talvez funcione.
Talvez o comportamento real da energia anímica torne toda a ideia inviável.
Ainda tenho muita coisa para medir antes de poder afirmar qualquer coisa.
Mas existe um motivo para continuar tentando.
Passei tempo demais aprendendo maneiras de destruir.
E, sinceramente, já vi destruição suficiente.
Se eu conseguir descobrir uma maneira de proteger uma alma sem precisar dominar, alterar ou aprisionar aquilo que ela é...
Bom.
Acho que isso seria uma descoberta muito mais interessante do que simplesmente criar outra arma.
Porque, se alguém pode tentar apagar a existência de outra pessoa, então eu quero descobrir o que é necessário para que essa existência consiga responder: não.
— Netto Spadoni
Relato do personagem — perspectiva de seu autor, não um registro oficial.