Diário de Emil Aveline

Dia 23 de Outubro · publicado em 23 de outubro de 2026

Emil AvelineEscrito por _kolybelDia 23 de Outubro


Eu fui tolo.

O mais tolo dentre todos.

Cometi erro após erro,
e, em cada acerto que julguei encontrar,
havia outro erro à minha espera.

Eu sou a razão do meu próprio desespero.

Eu sei muito.
Mas eu não sei de nada.

Conheço histórias que não deveriam ser contadas,
nomes que jamais deveriam ser pronunciados,
verdades que deveriam permanecer enterradas.

Mas de que vale conhecer o mundo inteiro,
se já não reconheço o homem no espelho?

Há algo em minha cabeça.
Uma coceira, pequena, insistente.
Uma lembrança de coisa alguma,
um rosto que nunca vi,
mas que me parece tão familiar...

Eu desenho.
Desenho para recordar.

Mas as linhas se cruzam,
os traços se confundem,
e aquilo que procuro
desaparece antes de tomar forma.

Talvez eu tenha esquecido.
Talvez nunca tenha sabido.

Eu sei muito.
Mas eu não sei de nada.


Houve um tempo em que eu ouvia histórias.

Sentava-me ao lado de estranhos,
ouvia seus medos, suas glórias,
e guardava cada palavra
como quem guarda um tesouro.

Eu acreditava que toda história merecia ser ouvida.

Que ingenuidade a minha.

Pois encontrei uma pessoa
que não desejava contar a sua.

E, em vez de respeitar seu silêncio,
procurei as palavras que ele havia escondido.

Abri páginas que não me pertenciam.
Li dores que não me foram confiadas.
E, quando finalmente o encontrei,
perguntei, sorrindo:

"Poderia me contar sua história?"

Não compreendi seu medo.

Não compreendi seu silêncio.

Eu queria conhecer uma pessoa.
E fiz com que ele me temesse.

Perdoe-me, Bubo.

Eu não sabia.

...Mas deveria saber.


Depois vieram os livros.

Ah, os livros...

Quantas vezes sonhei com uma biblioteca
onde nenhuma história tivesse fim?

Encontrei-a.

E, em minha arrogância,
acreditei que suas portas fechadas
fossem apenas um convite à curiosidade.

Li o que não deveria.
Vi o que não podia.
E chamei por aqueles
que jamais deveriam me ouvir.

Eles responderam.

E agora...

Agora não consigo fazê-los parar.

Há vozes além das paredes,
olhares além dos céus,
palavras que atravessam o silêncio
como agulhas através de véus.

Eles me ouvem.

Todos eles.

E eu os ouço também.

Suas risadas não trazem alegria.
Suas palavras não trazem consolo.

Chamam-me de tolo.
Chamam-me de irresponsável.

E estão certos.

Oh, como estão certos...

Eu abri uma porta
sem saber o que havia do outro lado.

E agora temo
que algo tenha escutado
o ranger de suas dobradiças.


Eu os condenei, por egoísmo.
Eu os persegui, por ignorância.

Não por ódio.
Não por maldade.

Por curiosidade.

Que palavra miserável.

Quantas desgraças cabem
em uma intenção tão pequena?

Os corredores estão mais silenciosos.
As conversas cessam quando me aproximo.
Os rostos se desviam.

E não os culpo.

Fui eu quem abriu cada distância.
Fui eu quem semeou cada receio.

Eu, que tanto desejava ouvir histórias,
tornei-me alguém
a quem ninguém deseja contar uma.

E ainda assim...

Ainda assim, desejo que me perdoem.

Que egoísmo terrível.

Depois de tudo,
ainda desejo alguma coisa deles.


Há algo atrás dos meus olhos.

Não.
Não atrás.

Dentro.

Coça.

Como se uma lembrança
tentasse rasgar a própria pele
para nascer.

Eu desenho.
Desenho outra vez.

Uma linha.
Duas.
Dez.
Cem.

O que era mesmo?

Havia uma forma.
Havia uma essência.

Eu sei que havia.

POR QUE NÃO CONSIGO ME LEMBRAR?

...

Perdão.

Não deveria gritar.

Eles podem ouvir.

Eles sempre ouvem.


Sinto saudade de quando não sabia.

De quando o mundo terminava
onde meus olhos alcançavam.

De quando as estrelas eram estrelas,
e não possíveis janelas.

De quando uma história
era apenas uma história.

Mas agora conheço os fios.
Conheço as linhas.
Conheço os nomes que lhes deram.

Sei que fomos arrancados.
Sei que não estamos aqui por acaso.

Não somos anomalias por coincidência.

Somos soldados.

E um dia seremos arrastados
para guerras que não criamos.

Eu queria contar histórias sobre o mundo.

Agora temo ter ajudado
a escrever seu fim.


Não quero morrer.

Ainda não.

Há tanto que preciso reparar,
tantas palavras que devo retirar,
tantas portas que gostaria de fechar.

Mas palavras ditas não retornam.
E portas abertas nem sempre se fecham.

Se eu pudesse voltar...

Não.

Não posso.

Que espécie de contador de histórias
ainda acredita poder reescrever o passado?

Eu sei muito.

Eu não sei de nada.

Eu não sei de nada.


A tinta está acabando.

Minhas mãos tremem.
Minha cabeça dói.

Ainda ouço as vozes.

Ainda sinto a coceira.

Ainda vejo, entre os traços,
a essência perdida
de algo que um dia foi...

O quê?

O que foi?

...

Não importa.

Não posso desfazer o que fiz.

Não posso devolver o silêncio
àqueles que obriguei a falar.

Não posso apagar dos olhos de Bubo
o medo que eu mesmo coloquei ali.

E não posso impedir que me escutem.

Mas posso escrever.

Escreverei aquilo que descobri.
Escreverei aquilo que destruí.
Escreverei os nomes que não devo esquecer,
mesmo quando esquecer o meu.

Não para que me encontrem.
Não para que me perdoem.
Não para que saibam quem fui.

Escreverei porque devo.

Porque cada página
é uma dívida que não consigo pagar.

E se um dia minhas mãos já não obedecerem,
se as palavras perderem o sentido,
se eu esquecer por que comecei...

Que ao menos permaneça escrito:

Eu fui tolo.

E enquanto houver tinta,
enquanto houver papel,
enquanto houver em mim
um único sopro de vida...

Eu continuarei escrevendo.

Não para ser lembrado.

Mas porque não mereço esquecer.

Relato do personagem — perspectiva de seu autor, não um registro oficial.